Vidas que marcam No dia 25 de Março de 1957 foi assinado em Roma o Tratado que criou a Comunidade Económica Europeia, antecedente da actual União Europeia, de que Portugal faz parte com mais 26 países. Completam-se hoje 52 anos. Entre os que puseram a sua assinatura no Tratado de Roma, notou-se a ausência de um dos principais artífices da “nova Europa”: Álcide de Gasperi, falecido no dia 19 de Agosto de 1954, fundador do partido Democracia Cristã, primeiro-ministro da Itália de 1945 a 1953, europeísta convicto, justamente apelidado de “pai da Europa unida”, com Robert Schuman, Konrad Adenauer e Jean Monnet.
Álcide de Gasperi nasceu no dia 3 de Abril de 1881 em Pieve Tesino, perto de Trento, numa província que até 1918 pertenceu ao Império Austro-Húngaro. A sua primeira intervenção pública conhecida, em 1901, numa universidade italiana, teve por tema “A cultura moderna sob uma base cristã”. Desde cedo se mostrou adepto dos ensinamentos sociais da encíclica “Rerum Novarum”, de Leão XIII, e participou na fundação do Partido Popular Italiano, em 1918. Eleito deputado, assistiu à ascensão de Mussolini e sofreria a perseguição dos fascistas por liderar a oposição parlamentar à ditadura. Seria preso em 1926 e libertado em 1929, graças aos Acordos de Latrão e por influência de Pio XI. Até a libertação de Roma, em 1944, trabalhou na biblioteca do Vaticano, em exílio no recém-criado Estado papal.
Após do fim da II Guerra Mundial, de Gasperi esteve sempre na linha da frente da reconstrução e unificação da Itália (dividida entre Norte e Sul, republicanos e monárquicos, democratas e totalitários, e com tendências independentistas em algumas regiões) e da Europa. Redigiu o programa político da DC, claro na criação de uma força política com vocação de governo que enfrentasse o fascismo do passado e a ameaça do comunismo estalinista e que contribuísse para a reconstrução material e moral da Itália, e venceu as primeiras e sucessivas eleições livres, liderando o governo até 1953.
Opondo-se a facções internas que queriam fazer da DC uma espécie de “instituto secular” com finalidade política e religiosa, Álcide de Gasperi sempre defendeu que a DC não era um “partido dos cristãos e para os cristãos”, mas com vocação de serviço à comunidade, independentemente das convicções religiosas. Tinha um irmão padre e uma filha freira e agia por convicção de fé, mas concebia a política numa plena separação funcional entre a Igreja e Estado, como o II Concílio do Vaticano viria a consagrar.
Recordado como grande político e principalmente estadista, foi dos primeiros a defender uma defesa comum para a Europa, fez da Itália parceiro privilegiado do Plano Marshall (plano norte-americano para a reconstrução da Europa), propôs a criação de um parlamento europeu e desejava uma união aduaneira entre a França e a Itália – algo que ficaria consagrado no Tratado de Roma, assinado por seis países (Itália, França, Alemanha, Luxemburgo, Holanda e Bélgica).
De profundas convicções cristãs, Álcide de Gasperi desejava ser lembrado como homem de fé, a sua “fonte interior do agir”. O seu processo de beatificação está em curso. Bento XVI visitou o seu túmulo, em S. Lourenço Fora dos Muros, no dia 30 de Novembro de 2008.
J.P.F.
Principal fonte: “O Evangelho dos Audazes. Políticos Católicos”, de Gustavo Villapalos e Enrique San Miguel, Ed. Gráfica de Coimbra – 2
