Noites da salvação

“A celebração da noite de Páscoa é tão decisiva que devemos preparar-nos cuidadosamente para ela”… – afirma D. Bruno Forte, no seu pequeno mas precioso livro “As quatro noites da salvação”.

Sem forçar paralelismos, o sentido profundo dessas quatro noites, tal como são apresentadas na tradição hebraica, diz muito ao nosso tempo, interpela-o e fecunda-o abundantemente.

A primeira noite – a da criação – era a noite do mundo deserto e vazio, da treva e do abismo. A noite dos nossos dias, coberto das trevas da mentira e da discórdia, mergulhado no caos do vazio de valores, necessitado da Luz que é Jesus Cristo, para que surja o dia, sedento do espírito, que é o princípio da harmonia!

A segunda noite – a manifestação a Abraão – foi a noite da fé, da urgência da confiança, da prova da fidelidade. A noite dos nossos dias, da insegurança e do medo, da hesitação e da dúvida. A noite precisada da certeza das coisas que se não vêem, da fidelidade que inspira confiança, da piedade como verdadeira entrega filial ao amor do Pai.

A terceira noite – a saída do Egipto – foi a noite do drama, do desejo de liberdade, mas da exigência da caminhada… e da tentação do saudosismo. A noite dos nossos dias, da confusão de liberdade com libertinagem, do comodismo e do imobilismo. A noite que clama pela Verdade que desvende o sentido do direito e do dever; que exige o acolhimento dos desafios e a submissão ao Espírito renovador e inovador.

A quarta noite – a noite dos novos céus e da nova terra – é a noite do já e do ainda não, a noite da tensão desta caminhada para o fim, que é a festa eterna com Deus, a noite da Páscoa do Senhor Jesus, que já antecipou a plenitude, a actualizar-se permanentemente até ao fim dos tempos. A noite dos nossos dias, de ânsias e expectativas misturadas com limites e fracassos, de projectos e sonhos desaguados tantas vezes em desilusões e cruas realidades penalizantes.

Noite de paixão e morte! Animada, entretanto, pela aurora festiva da ressurreição, que se ergue docemente, humildemente, em tantas manifestações de vida nova de amor fraterno, de entrega generosa até ao dom da vida, de luta persistente pela construção da pessoa humana, alimentada pela presença sacramental eficaz da “noite luminosamente redentora” da Páscoa de Jesus Cristo!