Peregrinação Notas de uma viagem de cultura e fé. De 12 a 23 de Março, um grupo de mais de 90 pessoas das dioceses de Aveiro, Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria e Santarém, participou numa peregrinação às Igrejas fundadas por S. Paulo e aos locais por onde passou o Apóstolo dos Gentios
A peregrinação diocesana que partiu de Aveiro começou a sua jornada bem cedo no passado dia 12 de Março. Pelas três horas da manhã já nos encontrávamos diante do Museu de Aveiro, cheios de ânimo para partir rumo ao Cairo, onde começaria a nossa grande aventura de seguir S. Paulo por essas terras do Médio Oriente e da Ásia Menor, por onde ele espalhou a Boa Nova da Salvação.
Começar uma peregrinação Paulina pelo Cairo, a capital do Egipto, parece nada ter a ver com o grande Apóstolo. Mas, a verdade é que não podemos deixar de ter presente que, na concepção do povo hebreu (ainda hoje) está muito arreigada a ideia que todos eles estiveram cativos no Egipto na pessoa dos seus antepassados e de lá foram libertados pela mão poderosa do seu Deus e Senhor. Neste sentido, também Paulo é um dos “libertados” da escravidão de outrora! Mas há outra ligação, que também tem a ver connosco, cristãos: ali começa a desenvolver-se a história da salvação a partir da gesta que leva o povo hebreu a abandonar o Egipto e a atravessar a pé enxuto as águas do Mar Vermelho, fazendo a sua travessia do deserto do Sinai, ao longo de quarenta anos, até entrarem na terra da promessa. Quisemos, igualmente nós, fazer essa evocação da longa travessia, dirigindo-nos do Cairo para Port Said, numa viagem de quatro horas, ao fim das quais pudemos, finalmente, embarcar, rumo a Israel.
Terra Santa
Chegados à Terra Santa, tendo aportado em Haifa, dirigimo-nos para a Galileia, onde Jesus começou o seu ministério público, subindo ao Monte das Bem-aventuranças e onde soube bem celebrar a Eucaristia, ao fim da manhã, na igreja que está no cimo, evocando o Sermão da Montanha. Daí passámos a Cafarnaum, onde visitámos a casa de Pedro, hoje protegida com uma moderna igreja; visitando a sinagoga de Cafarnaum, leu-se o discurso do Pão da Vida, do evangelho de S. João e fizemos a travessia do Mar da Galileia, onde Jesus caminhou sobre as águas, acalmou a tempestade e, sobretudo, nas suas margens “pescou” alguns pescadores para o seu discipulado: aqueles que o Novo Testamento refere com o nome de “Apóstolos” ou dos “Doze”. É verdade que nem todos seriam vizinhos do Lago, mas certamente seriam todos da Galileia. Tendo passado o rio Jordão, aí se fez a evocação do Baptismo do Senhor e do nosso próprio Baptismo.
O quarto dia da peregrinação foi dedicado quase exclusivamente a Belém: a “casa do pão”, no seu significado hebraico; ou “casa da carne” na língua falada pelos palestinianos. É curioso verificar como estes dois significados da palavra “Belém” encontram ali a sua plenitude de sentido. O Filho de Deus é dado ali ao mundo na carne humana, mas é esta mesma carne que se quer oferecer como alimento de toda a humanidade no pão vivo descido do Céu. Na realidade, Ele é carne e é pão; e ali mesmo, na Gruta dos Pastores, fomos alimentados por Ele, o Verbo feito Carne, que Se nos deu no Pão da Eucaristia.
Após o retempero do almoço, visitámos o lugar do nascimento do Senhor. Naturalmente o que se encontra hoje, nada tem a ver com aquela gruta de então. A devoção das sucessivas gerações de fiéis adornaram a gruta, retirando-lhe o seu ar austero, mas deixando a sua simplicidade. Por isso, para quem tem fé, pode-se fazer uma imagem fiel do que seria o lugar, quando a Virgem Maria deu à luz o seu Filho e Filho de Deus.
Terminada a visita à basílica da Natividade, regressámos novamente a Jerusalém, atravessando a fronteira entre a autoridade palestiniana e Israel, onde nos confrontámos com os altos muros que separam as duas entidades. Não deixa de impressionar que, tendo Deus vindo ao nosso encontro para derrubar todas as fronteiras, seja, precisamente em Belém, terra do seu nascimento, que esta cidade tenha de estar confinada dentro de altas barreiras de betão armado, criadas pelo desentendimento entre os homens!
Terminámos o dia, visitando o Muro Ocidental ou Muro das Lamentações, hoje o único lugar sagrado do Judaísmo.
O quinto dia em Jerusalém não poderia ter sido mais intenso. Depois de uma panorâmica geral sobre a cidade, avistada do cimo do Monte das Oliveiras, fez-se a descida pelo caminho que levou Jesus até entrar na sua cidade santa, no domingo de Ramos. Houve uma paragem na pequena igreja de Dominus Flevit (onde Jesus chorou sobre a sua cidade), para aí se ler a paixão de S. João, e prosseguiu-se até ao Jardim das Oliveiras, lugar da Agonia, onde está erguida a Igreja das Nações, sobre a rocha que a tradição afirma ser o local onde Jesus suou sangue. Da parte da tarde decorreu a visita ao Cenáculo, onde se fez a evocação da Última Ceia, do sacerdócio, das primeiras aparições do Ressuscitado e da descida do Espírito Santo. Dali, dinamizados pela força interior do Espírito do Ressuscitado, os Apóstolos fizeram irradiar a Igreja para os quatro cantos do mundo.
Regressados ao barco, rumámos em direcção a Antioquia e a Tarso.
Antioquia e Tarso
Foi em Antioquia que se deu aos discípulos pela primeira vez o nome de “cristãos”. Foi aí que Paulo, depois de ter sido procurado em Tarso, sua terra natal, por Barbané, se dedicou ao ensino e daí partiu para as suas viagens missionárias, enviado pela própria comunidade. Ter estado em Antioquia, hoje uma cidade inteiramente muçulmana, não deixa de constituir para nós um desafio para os nossos tempos: vivia-se intensamente a fé cristã e com a consciência que esta fé não pode ficar oculta e privada: é necessário dá-la a conhecer aos outros. Nem todos podem partir para anunciar o Evangelho. Mas podem ir alguns com o suporte da maioria que permanece nas suas tarefas habituais. Que grande exemplo para nós. Era ali que Paulo voltava para contar à comunidade como Deus, por seu intermédio, ia abrindo o coração a novos crentes e como a Igreja ia crescendo…
A passagem por Tarso foi breve. Aí se encontra um poço, que a tradição afirma ser da casa de Paulo e algumas ruínas, entretanto postas a descoberto pelas escavações arqueológicas e bem protegidas por vidro especial. Passámos ainda pela igreja de S. Paulo confiada a uma pequena comunidade de três religiosas italianas, única presença cristã em terra onde impera o Islão.
O sexto dia viu-nos a desembarcar em Antalya, cidade onde Paulo tomou o barco de regresso a Antioquia, no final da sua primeira viagem missionária. Passámos por Perga, onde Paulo e Barnabé pregaram e fomos ao anfiteatro de Aspendos, belíssima obra da antiguidade muito bem conservada e com uma acústica espantosa. Aí se fez uma evocação da pregação de Paulo por um actor profissional, que acompanhou toda a viagem, assumindo o papel do Apóstolo. Regressados ao barco, seguimos em direcção a Éfeso.
Éfeso
É uma cidade muito bem conservada e que nos dá, ainda hoje, a medida da sua grandeza ao tempo do Apóstolo. Paulo esteve aí demoradamente a anunciar a palavra e a sedimentar a fé dos efésios. Pudemos admirar as suas belas ruínas, os seus edifícios, a biblioteca de Celsus, o enorme anfiteatro que, em razão de obras de recuperação, não foi possível ver por dentro. Nesta cidade se desenvolveu na antiguidade um culto muito arreigado à deusa Artemísia. Os cristãos não admitiam nenhum culto aos deuses pagãos pelo que isso representaria uma quebra enorme nos ganhos daqueles que viviam às custas destes cultos. Por isso, aí se levantou um enorme tumulto contra Paulo, liderado por Demétrius, o ourives, que via o seu negócio em quebra por falta de clientes.
Para a cristandade Éfeso é também importante. Segundo a tradição da Igreja, aqui viveu Maria em casa do apóstolo João. Foi na Casa de Maria que o grupo português, englobando peregrinos das Dioceses de Lisboa, Aveiro, Coimbra, Leiria, Santarém e Porto, nos concentrámos para celebrar a Eucaristia: era o dia 19 de Março, o dia do Pai, e onde não deixámos de ter presente nas nossas intenções, mais uma vez, as nossas dioceses e seus bispos, bem como as nossas comunidades e famílias. Para além deste aspecto, importa referir que em Éfeso se reuniu um Concílio ecuménico onde, pela primeira vez, se atribuiu a Maria o título de Mãe de Deus.
Atenas
O oitavo dia amanheceu no porto do Pireu, em Atenas. Depois do desembarque, seguimos para a visita à cidade, subindo à Acrópole, donde se tem uma belíssima vista sobre a capital da Grécia e onde nos pudemos extasiar com a beleza das ruínas da civilização grega. Aqui também esteve Paulo que, depois de ter chegado à cidade, aí descobriu um altar “ao Deus desconhecido” e aproveitou a ocasião para falar aos atenienses desse Deus Desconhecido, dando-O a revelar na pessoa de Jesus Ressuscitado. Muito haveria a visitar em Atenas, mas o tempo urgia. Assim, partimos para Corinto, cidade em que Paulo se demorou cerca de dezoito meses e a cuja comunidade dirigiu, pelo menos, duas cartas que lemos agora nas nossas liturgias.
Visitando as ruínas de Corinto, fomos até à “bêma”, isto é, até ao tribunal onde Paulo defendeu a fé cristã contra os seus acusadores.
Foi em Corinto que se dividiu o grupo de peregrinos. Aqui uma parte considerável tomou o rumo do aeroporto para regressar a Lisboa; uma parte mais pequena, dirigiu-se Patras, para seguir de ferry até ao porto do Brindisi, na Itália, e continuar a sua peregrinação até Roma, a cidade onde Paulo deu o supremo testemunho da sua fé.
Neste percurso de Brindisi a Roma parámos em S. Giovanni Rotondo para visitarmos o túmulo de um santo dos nossos dias: o S.to Padre Pio, frade capuchinho que faleceu em 1968. Nesta pequena cidade, curiosamente, fomos surpreendidos por um nevão, no dia em que começava a Primavera.
Roma
Para o pequeno grupo remanescente que se dirigiu a Roma, o dia de domingo começou com a visita ao local onde S. Paulo foi martirizado. Por ser cidadão romano não poderia ser crucificado, como aconteceu a S. Pedro; Paulo foi decapitado. Diz a tradição que ao cair, a sua cabeça tocou em três pontos distintos, fazendo brotar três fontes de água; daí o local ser designado Tre Fontane. Contudo, não foi neste local que Paulo ficou sepultado. Os cristãos tomaram o seu corpo e transferiram-no para perto da Via Ostiense, onde hoje se levanta uma bela basílica, que constitui uma das quatro grandes basílicas patriarcais de Roma. Foi aí que nos dirigimos e aí celebrámos a Eucaristia, encerrando a nossa peregrinação, seguindo os passos de S. Paulo.
A tarde foi dedicada à visita do Vaticano e da sua Basílica, passando pelos túmulos dos últimos Papas e pelo de S. Pedro, onde reafirmámos a nossa fé, rezando o Credo e pelas intenções da Igreja, do Papa e dos nossos Bispos.
Durante toda a peregrinação, fomos acompanhados pelo senhor D. Anacleto de Oliveira, autoridade em estudos sobre S. Paulo. A peregrinação não foi apenas um passar pelos lugares. Isso seria muito interessante, mas redundaria apenas em viagem turística à volta de uma grande figura da Igreja. Tivemos ocasião de escutar os ensinamentos de D. Anacleto quer no autocarro, durante os percursos do barco aos locais de visita, quer nas homilias da Eucaristia, quer ainda no barco, onde tínhamos à nossa disposição uma sala para as catequeses que quase diariamente eram apresentadas pelo Bispo Auxiliar de Lisboa.
As Eucaristias, preparadas antecipadamente, vividas e cantadas, a oração feita nos autocarros, seguindo um guião previamente preparado, as catequeses e as homilias bem como todas as explicações sobre S. Paulo e os locais por onde ele passou, no contexto histórico e cultural do seu tempo, certamente a todos nos enriqueceu e levou a descobrir ou a aprofundar uma persona-lidade tão rica como é a deste Apóstolo de Jesus Cristo.
P.e José Manuel
