Monumento da Paz abraça-nos há 50 anos

Cristo Rei O Cristo Rei não dá as boas-vindas a quem atravessa a Ponte 25 de Abril para a margem sul do Tejo. Quando foi inaugurado, ainda faltavam três anos para começar a ser construída e sete para ser inaugurada a ponte pênsil. O Cristo Rei dá, sim, um abraço sereno à capital de Portugal e, por extensão, a todo o país e a todos os portugueses.

É assim há 50 anos. Completam-se no próximo Domingo.

O monumento foi inaugurado no dia 17 de Maio de 1959 numa cerimónia com os bispos portugueses, os cardeais do Rio de Janeiro e de Lourenço Marques (Maputo, Moçambique), autoridades e 300 mil portugueses. O Papa João XXIII fez-se representar por uma mensagem via rádio. O cardeal Cerejeira afirmou na altura as palavras que estiveram na origem do monumento e que lhe dão sentido: “Este será sempre um sinal de gratidão nacional pelo dom da paz”. Paz em Portugal quando a Espanha está em guerra civil e quando o mundo vive a mais mortífera guerra de sempre (II Guerra Mundial, 1939-45). “Perante a cruenta guerra civil na vizinha Espanha e o crescimento do desprezo por Deus, o monumento era acto de desagravo, mas sobretudo expressava gratidão a Cristo por Portugal gozar de paz e incentivava a exigência de um ressurgimento nacional inspirado, na linha da tradição, em Jesus Cristo, único Senhor”, escreve a Conferência Episcopal Portuguesa na “Nota Pastoral por ocasião dos 50 anos do Monumento a Cristo Rei”, de 16 de Janeiro de 2009.

Segundo o sítio oficial (www.cristorei.pt), a ideia inicial do monumento foi da responsabilidade do cardeal-patriarca D. Manuel Cerejeira, ao ver a imagem de Cristo Redentor do Corcovado do Rio de Janeiro, em 1934. Mas só ganha força com o eclodir da II Guerra Mundial.

“Em 20 de Abril de 1940, em Fátima, os Bispos fazem um voto: Se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ia sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade”, refere o Sítio oficial. Após o fim da guerra, os Bispos anunciaram na Pastoral colectiva de 18 de Janeiro de 1946 a decisão de cumprir o voto. A primeira pedra foi lançada no dia 18 de Dezembro de 1949. As obras demoraram 10 anos, sendo de destacar dois movimentos na dinamização do espírito da obra e na angariação de fundos: a Acção Católica e o Apostolado de Oração. “Sem a Acção Católica, com a sua mística do reinado social de Cristo, e o Apostolado de Oração, promotor da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a ideia da erecção do Monumento não avançaria”, escrevem os Bispos na referida nota de 16 de Janeiro.

Que sentido tem

o monumento hoje?

Do alto dos 82 metros do pedestal sobre o qual assenta a estátua (por sua vez, a base do pórtico está a 113 metros de altura sobre o Tejo), obtém-se a melhor vista sobre Lisboa: a Ponte, Alcântara, Monsanto, Belém, Amoreiras… Mas não é essa a principal utilidade do monumento. Os Bispos portugueses recordam que a ideia do monumento surgiu durante o pontificado de Pio XI (1922-1939), que tinha assumido como máxima “Pax Christi in Regno Christi” (A Paz de Cristo no Reino de Cristo). “A mentalidade da época era particularmente sensível a uma verdade universal: se a sociedade obedecesse à lei de Cristo, em vez de esquecer Deus, haveria uma ordem social que respeitaria a liberdade, a acção e a organização da Igreja; dar-se-ia primado ao espiritual, o que conduziria a um humanismo integral”, escrevem. Hoje, sublinhar que Cristo é Rei, na linha do Vaticano II, é revalorizar a “dimensão missionária e o papel militante dos leigos na construção do mundo, na fidelidade à novidade inaugurada em Cristo”.

Os Bispos Portugueses realçam igualmente o convite de João Paulo II para o novo milénio: “Fixar o olhar intensamente em Cristo, sem distracções”. E acrescentam: “É, realmente, fundamento da acção missionária reviver, como fonte da verdadeira alegria do coração, pela contemplação, a experiência do rosto integral de Cristo. Há um Senhor da História. Mesmo nos momentos mais difíceis da humanidade somos guiados por Ele, como manifestaram os bispos portugueses há cinquenta anos. O Coração trespassado de Cristo abre-se a interceder por nós (cf. Heb 7,25). Convida: «Vinde a mim, vós todos que andais cansados e oprimidos» sob o fardo da vida (Mt 11,28). Uma espiritualidade centrada em Cristo conduz a dar a vida pelo Reino, de modo mais frutuoso. O ardor apostólico vem do encontro pessoal com Cristo, da necessidade de comunicar ou narrar a outros a experiência vivida. A santidade, o modo único como cada um responde à nova vida em Cristo, é a chave do ardor renovado da nova evangelização. Só assim se suscitará a adesão pessoal a Jesus Cristo e à Igreja de tantos homens e mulheres baptizados que vivem sem energia o cristianismo”.

Jorge Pires Ferreira

Características do monumento

* Autores do projecto: Arq. António Lino e o Eng. Francisco de Mello e Castro

* Autor da imagem: Francisco Franco

* Erguido num monte 113 metros acima do nível do Tejo

* Altura total: 110 m; pedestal: 82 m; imagem: 28 m.

* Peso total da construção: 40 mil toneladas

* Distância de dedo a dedo: 28 m; tamanho da cabeça: 4 m; tamanho do coração: 1,89m

* Sob a tutela da diocese de Setúbal desde 1999 (antes, pertencia ao Patriarcado de Lisboa).

* Neste espaço foi implantada em Maio de 2007 a antiga Cruz Alta do Santuário de Fátima.

Reiventar a solidariedade

No âmbito das comemorações dos 50 anos do monumento, que tem como momento principal a celebração presidida pelo Cardeal D. José Saraiva Martins, enviado de Bento XVI (às 16h, no Santuário de Almada), a Conferência Episcopal Portuguesa decidiu promover um Simpósio de interpelação da sociedade, convocando todos os cidadãos para uma reflexão alargada e profunda sobre o futuro da solidariedade e o modelo de desenvolvimento da sociedade.

O desafio que a Igreja lança a todos os cidadãos é o de se encontrarem novos modos e expressões para a solidariedade: “reinventar a solidariedade”. Pretende-se não só inspirar e mobilizar para a acção, mas também reconhecer as centenas de gestos e iniciativas que, quotidianamente, são expressão de solidariedade, dentro e fora da Igreja.

O Simpósio terá lugar no dia 15 de Maio, no Centro de Congressos de Lisboa da AIP (antiga FIL), devendo a inscrição ser feita on-line (www.reinventarasolidariedade.org) ou via tel./fax (21 885 54 98).