Questão inocente?

O diploma foi aprovado. A praça pública não reagiu. A questão parece então ser inócua, nada significativa… Todavia, ela é vital! É mesmo o Testamento Vital!

Passou ao lado de muitos de nós esta discussão sobre o documento que contenha as decisões de alguém sobre tratamentos ou intervenções que queira recusar no fim dos seus dias, caso venha a faltar-lhe a capacidade de decisão.

Percebemos que não é uma questão inócua. Se ela pode salvaguardar a dignidade pessoal de arbitrariedades superficiais de terceiros, pode, por outro lado, abrir uma incontrolável porta para a Eutanásia.

Estamos no cerne de problemas de bioética. Urge que a palavra da Igreja se faça ouvir sobre estes temas. Sabemos que há orientações morais sobre o assunto da distanásia. Mas esta será a oportunidade de lembrar e clarificar princípios que são básicos no respeito pela dignidade da pessoa humana, pela defesa e promoção da vida, para serenar emoções e abrir o espírito a esperanças realistas.

O próprio direito que tem o doente de ser informado claramente sobre a sua situação clínica pede, a par com a verdade, o bom senso e a sensibilidade humana, para tornar o paciente participante consciente do caminho de sofrimento, sem lhe destruir as capacidades espirituais de compreender esse itinerário. “A Verdade na Caridade” ganha pleno sentido nestas circunstâncias.

E, se nós somos irrenunciavelmente solidários na família humana, muito mais na família de sangue, ainda reforçada pela pertença a uma crença, os círculos ou redes do tecido afectivo não podem ser marginalizados, a pretexto de cada um ser o responsável único das suas decisões. A nossa liberdade, a nossa realização, entretece-se necessariamente com a liberdade e realização dos outros, a começar pelos familiares.

Deixar passar em claro esta oportunidade é, mais uma vez, delegar no estado competências que só lhe cabe regular, não decidir, nem sequer regulamentar.