A Ano Sacerdotal está a caminhar para o seu termo, percorrido entre dolorosas situações de pecado, que muito têm feito sofrer a Igreja, e muitos sinais de sentido contrário, de verdadeiro caminho de santidade, de fidelidade e empenho apostólico, que fazem brilhar o rosto de Cristo em frágeis instrumentos humanos.
Neste contexto, impressionou-me uma de entre as pessoas “maiores” da hierarquia, o cardeal Seán, arcebispo de Boston. Figura atraente a um tempo e humilde, o título do seu recente livro exprime bem a simbiose entre um frade capuchinho genuíno, desprendido e serviçal, e o pastor investido em autoridade vivida como serviço – Anel e Sandálias.
O perfil sacerdotal que se pressente atravessar a sua existência retrata-o com esmero numa das páginas desse livro, na homilia da Missa crismal de 2007, tomando como veículo do seu pensamento o protagonista do filme Der Neunte Tag (“O Nono Dia”) sobre suplícios que sofriam dos nazis os padres presos em Dachau – o Padre Henri Kremer.
Aliciado com a oferta da liberdade, pelo oficial SS Gebhardt, antigo seminarista, que renegara a fé, com ele troca breves frases sobre o sacerdócio, síntese perfeita do que ele é ou não é. Diz o oficial: “Era o maior desejo da minha mãe que eu me tornasse padre, para poder ter um dignitário na família”. O P.e Kremer não hesita em responder: “Os padres são servos, não dignitários. A minha mãe sabia isso”.
Resposta contundente! Um programa de vida para si e um apelo aos seus presbíteros. Uma interpelação a todos nós, no âmbito da renovação da nossa fidelidade alicerçada na fidelidade de Jesus Cristo.
Saborosas são ainda as palavras do cardeal sobre os sinais que intitulam o seu livro: “Ser ao mesmo tempo o irmão mais pequeno e o pai é um verdadeiro desafio. Não sei se tenho tido sucesso num ou noutro desempenho, mas sei que estou grato a Deus pelo privilégio destas duas vocações”.
Sem sandálias nem anel, cada um de nós é chamado a esta dupla vocação: o serviço humilde de cooperação com a autoridade apostólica – “combinação incómoda”, como diz Seán. A gratidão a Deus pelo chamamento exprime-se, essencialmente, pela fidelidade ao povo a quem somos enviados, ancorados na fidelidade à autoridade apostólica. Desafio exigente! Caminho gratificante!
