A Festa (6)

Notas Litúrgicas G) O domingo, a festa primordial

O dia de festa por excelência para a comunidade cristã é o domingo, a «festa primordial». É algo mais, muito mais que um dia em que não se trabalha. Os nomes, que as primeiras comunidades de cristãos lhe deram, indicam já expressivamente toda a carga teológica que viam neste dia de festa.

O domingo é o dia primeiro e, ao mesmo tempo, o dia oitavo. O dia primeiro, porque nos recorda a criação, quando Deus começou e concluiu a sua obra criadora. O dia primeiro, porque nele sucedeu o grande acontecimento da nova criação, a ressurreição de Jesus, o primogénito de toda a criação. Mas, por sua vez, os Padres da Igreja gostavam de chamar ao domingo o «dia oitavo»: ou seja, o dia que sucede à semana completa, o que volta a começar, o que projecta o tempo para a frente, para a plenitude esperada, inaugurando a nova criação. Por isso, o domingo é, ao mesmo tempo, a grande memória da salvação já cumprida e a grande profecia da sua total realização.

O domingo é o dia do Senhor por antonomásia. Do Senhor Jesus, na sua nova existência de Ressuscitado. Os cristãos reúnem-se no domingo: é o dia da comunidade, da assembleia eucarística, na qual celebram a Palavra, que Deus lhes dirige, e a fracção do Pão, que Cristo lhes oferece. Numa síntese harmónica sucede que, no «dia do Senhor» (o domingo), se reúne a «comunidade do Senhor» (a Igreja), para celebrar a «Ceia do Senhor» (a Eucaristia).

Além disso, o domingo é também o dia de descanso e da liberdade. É como um voltar semanal à natureza como obra de Deus, celebrando o poder criador de Deus e a tarefa colaboradora encomendada ao homem. Gozar da natureza faz parte da festividade dominical para muitas famílias.

O descanso dominical não tem um sentido negativo –o não trabalhar – mas claramente positivo: participar do descanso do Criador e da nova liberdade de Cristo glorioso. Um descanso não só funcional – recuperar forças para trabalhar mais no dia seguinte – mas cultual, participando da bênção do dia do Senhor, com um dia de trégua na afanosa correria da subsistência, e de gesto profético de libertação das máquinas e da produtividade.

E, ao mesmo tempo, o domingo deveria ser o dia da comunicação humana, cumprindo assim também outra das características da festa. É o dia que torna pobres e ricos iguais no descanso, visto que a festa é uma vida mais informal e gratuita. O dia que deveria servir-nos para nos reencontrarmos a nós mesmos na nossa própria identidade de pessoas livres e de cristãos, convencidos da vitória libertadora de Cristo; e também para reencontrar os outros num clima mais humano e amistoso. Um dia de paz entre os homens e a natureza, entre homem e mulher, entre homem e Deus.

Memória, profecia, celebração. O domingo é um dia em que nos torna mais humanos e que reaviva a nossa identidade de cristãos: que nos recorda e projecta, enquanto «reis da criação», chamados a colaborar com o Criador; que nos recorda e projecta na nossa condição de crentes no Ressuscitado e de membros de uma comunidade cristã, nascida no baptismo e continuamente renovada na Eucaristia.

SDPL