À Luz da Palavra O Comité Nobel atribuiu a uma mulher iraniana, Shrin Ebadi, o Nobel da Paz 2003, destacando os seus esforços em prol da democracia e dos direitos humanos, nomeadamente os das mulheres e das crianças. Esta mulher renunciou a uma carreira brilhante nos Estados Unidos, para se entregar ao seu povo, preferindo ser oprimida e presa, por causa dos ideais que defendia. Este evento mostra-nos a veracidade da mensagem bíblica, que neste domingo nos é proposta. Na lógica de Deus, os vencedores são aqueles e aquelas que vivem no sofrimento, na humilhação e na abnegação da sua própria vida, e que, por isto, trazem à humanidade concreta uma mais valia de vida, de libertação e de esperança, como aconteceu com Shrin Ebadi, muçulmana de religião. Contrária é a lógica humana, em que os vencedores são aqueles e aquelas que se preocupam com o poder, com o dinheiro e com o domínio, e cujo fruto é presunção e frivolidade.
Comecemos pela primeira leitura. Isaías fala-nos do Servo do Senhor. Este Servo foi esmagado pelo sofrimento, mas ofereceu a sua vida como vítima de expiação, por isso terá uma des-cendência duradoira e, no fim dos seus dias “verá a luz e ficará saciado”. Em Jesus, esta enigmática figura alcançou a sua plenitude. Na continuação da Carta aos Hebreus, o autor fala-nos de Jesus Cristo, que, pela sua encar-nação, vestiu a nossa fragilidade, partilhou a nossa condição humana e sofreu a morte. Mas Deus ressuscitou-o e fê-lo penetrar nos Céus, tornando-se, assim, o grande sumo sacerdote, capaz de se compadecer das nossas fraquezas e de nos obter todos os auxílios e favores, de que carecemos. Tanto o Servo do Senhor como Jesus foram vencedores, na direcção da lógica de Deus. No evangelho, Marcos narra um episódio que nos mostra a dificuldade que os próprios discípulos de Jesus têm em entender e acolher o itinerário de vida que Ele lhes propõe, segundo a lógica de Deus. Tiago e João querem ser os maiores, entre os doze. Pedem a Jesus o lugar de primeiro e de segundo ministro, no seu reino. Jesus, porém, contrapõe-lhes: “Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida para redenção de todos”.
Jesus veio habitar no meio de nós, pela sua encarnação, para servir e, por isso, recusou todas as tentações de ambição, de poder e de grandeza. Fez da sua vida um permanente serviço aos pobres, aos pequenos, aos doentes, aos últimos da comunidade humana e religiosa. Este é o exemplo da vida de Jesus que Ele apresenta como modelo aos seus seguidores. Isto é sumamente sério e nenhum clérigo, religioso/a ou leigo/a o pode ignorar, porque quem não é capaz de renunciar aos seus esquemas de egoísmo, de ambição, de domínio, para fazer da sua vida um dom e um serviço de amor, não pode ser discípulo e discípula de Jesus. Na comunidade cristã sempre houve a tentação de nos organizarmos de acordo com os esquemas da lógica humana: jogos de poder, tentativas de do-mínio, sonhos de grandeza, de fazer “carreira”, de conquistar honras e privilégios, de protagonismo, de expectativa sobre lugares de destaque, promoções, etc. Contudo, esta não é a Igreja fundada em Jesus Cristo, porque toda a autoridade que não é amor e serviço, é incompatível com a dinâmica do Reino. Nós, os discípulos e as discípulas de Jesus, temos a responsabilidade de instaurar e de desenvolver uma nova or-dem em todos os espaços onde nos encontramos, desde o familiar ao eclesial, passando pelo laboral, político e económico. Havemos de exercer as nossas funções de autoridade como um serviço, na perspectiva do bem comum. E, se alguém havemos de privilegiar, sejam os mais pequenos e desprotegidos. A nossa habitual atitude face ao próximo, há-de ser a de acolhimento empático, de respeito caloroso e profundo, de aceitação incondicional e de autenticidade, vendo nele um filho e uma filha muito amada de Deus. Como quem serve, como Jesus.
Leituras do XXIX Domingo Comum – Ano B
Is 53,10-11; Sl 32 (33); Heb 4,14-16; Mc 10,35-45
