A Semana

O ambiente político e judicial está um autêntico lodaçal, com a ajuda de uma certa comunicação social sempre ávida de escândalos para vender notícias ou pseudonotícias. A situação é de tal modo grave, que o próprio Presidente da República, Jorge Sampaio se viu obrigado a dirigir uma mensagem ao povo português, numa perspectiva de chamar à razão os agentes políticos e judiciais, sobretudo, mas também para nos dizer a todos que “por mais doloroso que seja este tempo, [é preciso que] façamos dele um tempo de esperança”.

Mas, se isso é importante, Jorge Sampaio não deixa de denunciar a “Novela judiciária que nos distrai de todas as outras preocupações e projectos, igualmente essenciais, e acaba por constituir, no alarido criado, entrave de monta a uma administração da Justiça que convença pela sua equidade, pelo seu equilíbrio e pela sua serenidade”.

O Presidente de todos os portugueses lembra que os julgamentos têm de ser céleres e equitativos nos locais próprios, “que são os tribunais e só eles”, sublinhando que devem ser protegidos, com igual empenho, os direitos das vítimas e dos arguidos, “para que à desgraça de não termos sabido cuidar das crianças que nos foram confiadas se não venham somar a desgraça de não termos feito Justiça, ou de termos ficado indesculpavelmente aquém, ou ao lado, na punição dos que delas criminosamente abusaram”.

Os avisos foram feitos pelo mais alto magistrado da Nação. Importa agora seguir o seu conselho e deixar que os tribunais cumpram o seu dever com rapidez. Sempre com o pensamento nas vítimas, sem criarmos mais vítimas.

Quando há dias ouvimos e lemos que o Procurador Geral da República, Souto Moura, havia ordenado um inquérito para se descobrir e castigar os que estavam na base da divulgação das escutas telefónicas, carreadas para os processos sobre pedofilia na Casa Pia, confessamos que nos saltou ao rosto um sorriso incrédulo de bons resultados. Que saibamos, nunca ninguém, neste País, foi apanhado com a boca na botija deste crime com raízes nos ambientes judiciários, há tanto tempo. Os criminosos, que agem na sombra, têm permanecido impunes.

O próprio Presidente da República, o Procurador Geral da República, o Bastonário da Ordem dos Advogados e tantos outros bem clamam que é uma pouca-vergonha o que se está a passar e que é preciso pôr cobro a este estado de coisas, mas a verdade é que os culpados nunca são apanhados.

E porquê? Simplesmente porque pertencem ao poder judicial. Estão entre os que mexem nos papéis, que registam as escutas, que ouvem os inquiridos. Não são gente de fora, mas de dentro. E porque são gente de dentro, provavelmente nunca ninguém lhes deita a unha. Esta é que é a grande verdade. E o segredo da justiça, de que tanto se fala, continuará a ser violado e ao sabor de quem, por interesses obscuros, por má-fé, por desonestidade, lá vai levando a água ao seu moinho.