“Eu vou criar novos céus e uma nova terra… Exultarei em Jerusalém, o meu povo será a minha alegria; E doravante não mais se ouvirão choros nem lamentos” (Is. 65, 17-19) A meta final, prometida à humanidade, é uma vida de plenitude, sem aflições nem angústias, sem dor nem morte. A glorificação de Jesus Cristo é o passo sem retorno que abre caminho ao cumprimento dessa promessa. Estamos na rota da grande festa final dos santos, daqueles que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro.
Os pastores da Igreja e a piedade cristã foram assumindo, progressivamente, a consciência de que a santidade de Deus — na Bíblia, só Javé é santo —, numa religião de salvação, Deus a deveria comunicar ao Seu povo, não como fruto do esforço humano, mas como dom do amor do mesmo Deus e acolhimento da pessoa humana a esse dom.
A pouco e pouco, se desenhou o hábito de celebrar aqueles que evidenciavam um resposta mais heróica a esse dom. Desde os primeiros séculos, com o culto dos Mártires, testemunhos de fidelidade por excelência. Já no séc. VII, Bonifácio IV purifica o Panteão do Campo de Marte e dedica-o à Santíssima Virgem e a todos os Mártires. E a primeira festa dos Santos em geral é fixada em 13 de Maio. Foi-se alargando o espectro dos abrangidos (os Apóstolos, os Confessores), até que, por 737, se insere no Cânone da Missa uma comemoração de Todos os Santos. Pelo Papa Gregório IV, no séc. IX, a festa é fixada definitivamente em 1 de Novembro; e Sisto IV eleva-a a uma das maiores solenidades, com oitava.
É a festa da esperança, do céu cheio de estrelas, da peregrinação terrena — carregada de sombras e vias tortuosas — agora transfigurada em aleluias permanentes! Finalmente, aquilo que, sem vermos, acreditámos pela fé, manifestou-se em plenitude. E quantos acreditaram em Deus, não ficarão desiludidos; porque Ele se manifesta!
Junta-se à Festa de Todos os Santos a celebração dos Fiéis Defuntos. Como e por que razão terá surgido esta aproximação?
A oração pelos mortos é um uso cristão desde as origens. E a solidariedade com aqueles que não deixaram parentes neste mundo é também uma prática desde o princípio. A convicção de que podemos ajudar à purificação final os que partiram e esta consciência de que temos que ver uns com os outros consolida esta prática de rezar por todos os defuntos. Santo Agostinho menciona este uso e interpreta-o como um sinal da bondade da Igreja, que é Mãe de todos! As diversas Igrejas, os diversos Ritos, fixam dias próprios para esta oração solidária. No Ocidente, este dia consagrado à oração pelos Defuntos era quase geral nos mosteiros do séc. VII, embora com dias variáveis.
No séc. IX, Amalário, organizando os ofícios divinos, encostou o dos Fiéis Defuntos ao de Todos os Santos, porque entendia que aqueles que estão em purificação se encontram numa linha intermédia entre o céu e a terra. Foi o abade de Cluny, Santo Odilon, por 998, certamente com o mesmo pensamento de Amalário, que juntou a comemoração dos Fiéis Defuntos, em 2 de Novembro, à Festa de Todos os Santos, com obrigatoriedade nos mosteiros clunienses. O costume espalhou-se e tornou-se geral nos séc.s XIII e XIV. Com a reforma do Breviário romano, por S. Pio X, o ofício dos Defuntos veio juntar-se à oitava de Todos os Santos. Desde 1913, foi dotado de ofício especial.
Não nos parecem ocasionais todas estas aproximações das duas festas. Até ao ponto de, também por conveniência social, dado que o 1.º de Novembro é feriado, estar praticamente consagrada a celebração dos Fiéis Defuntos na tarde do dia 1 de Novembro.
Na verdade, a alegria de saber que uma multidão incontável, proveniente de todos os povos, raças, línguas e nações, canta os louvores do Cordeiro, intui que muitos desses eleitos são aqueles cujos restos mortais temos nos nossos cemitérios, das nossas comunidades e das nossas famílias, pais e mães de família, jovens e crianças, profissionais com quem convivemos… Por outro lado, a certeza da comunhão dos santos, isto é, que continuamos, em Jesus Cristo, a ser um Corpo cujos membros contribuem para o bem uns dos outros, faz-nos sentir que a santidade dos bem-aventurados aliada à oração da Igreja peregrina constituem a mais bela expressão da caridade cristã!
A expectativa da festa final precisa de ser alimentada em serena esperança e motivada pela certeza de que muitos responderam fielmente ao dom de Deus. Juntos, na festa, a caminho, ou ainda nesta tenda provisória, ganhamos outro ânimo, quando estamos com os nossos.
Isto deveria transformar o panorama dos nossos cemitérios: menos carregados de luto e mais iluminados pela esperança; menos pejados de velas poluentes e flores de luxo e mais envolvidos em clima de oração confiante e de esperançoso canto de ressurreição. Na certeza de que, com Cristo, vencedor sobre os poderes inimigos, também nós participaremos da nova criação, que consistirá num retorno definitivo Àquele de quem tudo provém!
Cf. JOÃO PAULO II, A vida eterna já começou, Fátima 2000.
JOSÉ LEITE, org., Santos de cada dia III, Braga 1985.
MISSAL DOMINICAL, ed. Paulinas, Brasília 1980.
