Notas Litúrgicas D) Depois dos aspectos focados no artigo anterior, há, pois, que cuidar dos elementos de festa de uma celebração:
– a comunidade reunida, que se sinta convocada, acolhida e protagonista da celebração; não como uma sociedade anónima e dispersa, mas como família de crentes que participam activamente;
– um ambiente agradável, esteticamente cuidado, nas melhores condições possíveis de celebração;
– o canto e a música, que além da expressividade dão a toda a celebração um tom festivo, quer quando o canto é realizado por toda a assembleia quer quando, em determinados dias de festa, o coral canta polifonia ou quando se ambientam os momentos de entrada ou de silêncio meditativo com um solo de música;
– o cuidado das acções simbólicas: as que se encontram nos livros litúrgicos e as que uma sã imaginação pastoral possa acrescentar com carácter festivo para ocasiões mais expressivas da comunidade; a linguagem dos símbolos é a melhor para comunicar a sintonia festiva a toda a assembleia celebrante;
– a gradualidade no carácter festivo, reservando para os domingos ou festas mais importantes os elementos mais extraordinários, mas sem privar toda a celebração de um tom mínimo de vitalidade e alegria;
– a festa afecta todo o homem, não só os seus ouvidos ou a sua fé interior: os elementos de adorno, música, estética, incenso, movimentos, símbolos, imagens… sabiamente harmonizados também pertencem à festa cristã;
– dentro da ordem e da identidade de cada momento da celebração, a nossa liturgia necessita de uma dose maior de fantasia e criatividade; pode-se respeitar o espírito e os objectivos da celebração e, ao mesmo tempo, dar-lhe um ar maior de espontaneidade e variedade; na «gramática» da festa humana há expressões que não desdizem necessariamente da fé cristã.
E) Valentia para fazer festa. É, muitas vezes, o que nos falta. A pastoral deveria, pois, ter na Igreja de hoje uma mais clara atitude de aceitação para a festa. Uma Igreja que descobre um Deus menos «severo» e mais próximo, que segue um Cristo mais humano e festivo, inclusivamente na sua fidelidade radical à difícil missão – quando a liturgia fala da morte de Cristo refre-se a ela como «a gloriosa Paixão» –; uma Igreja convencida da presença nela do Espírito de Deus, que é Espírito de vida, de alegria e festa – sem descuidar, naturalmente, a tarefa de anunciar e defender a verdade, porque Ele é também o Espírito da verdade; nem ser menos exigente no estilo evangélico de vida, porque também o Espírito é o que nos ensina a lei nova do amor…
Uma Igreja assim deve ser uma comunidade em festa, que convida toda a humanidade à celebração dos melhores valores que se podem desejar. Uma comunidade cristã que acolhe com alegria o novo estilo festivo de umas celebrações mais humanas, ou a vitalidade de umas páscoas juvenis, ou a criatividade de uma liturgia em que se canta a um ritmo mais vivo e se buscam símbolos mais frescos que, sem desnaturalizar a estrutura herdada dos sacramentos, a tornam mais expressiva e participada.
Duas citações para terminar, tomadas de dois autores que escreveram sobre o aspecto festivo da comunidade cristã:
Cox, no final da sua obra A festa dos loucos: «a esperança cristã sugere que o homem está destinado à cidade. No entanto, não se trata de qualquer cidade. Se tomarmos em consideração as imagens do céu, assim como os símbolos do livro do Apocalipse, não se trata só de uma cidade na qual se aboliu a injustiça e na qual não existe o pranto. É uma cidade na qual se celebra uma maravilhosa festa de bodas, onde rebentam risos, se dança e ainda não se serviu o vinho melhor».
Moltmann, também como conclusão do seu livro Sobre a liberdade, a alegria e o jogo:: «conviria que a Igreja não se compreendesse como meio para um fim, como Igreja para o mundo, mas que evidencie em si mesma também a existência livre e redimida com aquele a quem ainda quer servir. A Igreja é neste sentido, e só neste sentido, fim para si mesma, não como Igreja hierárquica e burocrática, mas como comunidade dos homens livres… demonstrando ao mesmo tempo esta liberdade e deixando transluzir o gozo desta liberdade».
SDPL
