Estádios coloridos, hospitais abarrotados

Partilhando O País parece que perdeu a rota em sectores tão vitais, porventura, nunca imagináveis. Não vale a pena evocar casos, situações que preocupam todo o cidadão consciente, todo o cidadão que não deve viver só para si mas também para os outros. E de quem é a culpa? Será um pouco de todos, uns mais outros menos, uns por culpas de gestão, outros por omissões. E hoje o pecado da omissão será dos piores de uma sociedade consumista, egoísta.

Mas ninguém deverá entrar no pessimismo do não te importes porque ainda não bateu à minha porta! É tempo de remar contra a maré de pessimismo.

O que vai ainda valendo para apagar, quiçá, algumas mágoas, incertezas no futuro, será o futebol de alta competição ou fobia de inau-gurações de grandes estádios, como sendo nós os melhores do mundo!… E então este fim-de-semana foi ao rubro quando a “catedral” do Benfica desceu ao relvado e os tribunos subiram à cátedra do lindo Estádio do glorioso Benfica!…

Gostei do espectáculo, recordando-me um pouco os Olímpicos, com dignidade, arte, moldura, alegria e… que mais?! Também gostei das entrevistas feitas no local, todas elas afinando pelo mesmo diapasão, como é normal nestas circunstâncias de euforia. Mas um depoimento me chamou a atenção saído da boca de um cavalheiro, enrolado na bandeira do Glorioso: “Olhe, tudo isto está certo, está lindo mas… Sabe eu estava a ver este estádio e a pensar: Se fazem estes estádios (são dez no País) em tempo recorde e com esta grandeza, porque não há recordes para fazer mais hospitais, para dotar os que há com o mínimo de condições?!

É verdade. Ouvi e mastiguei um pouco mais neste fim-de-semana por ter mais tempo… para mastigar, e fui reflectindo na ânsia daquela jovem mãe, internada num hospital de Lisboa, lançando por entre dentes este desabafo: Ai o meu poney, lá da quinta onde trabalho; ai as minhas meninas!” A mulher, dos lados do Montijo, há três anos alguém lhe doou um rim. Tudo bem, só que a jovem – mãe, à minha interpelação, desabafava ter ficado bem, mas agora vim cá outra vez! Olhe, era um rim de um homem que tinha morrido. Não sei! Mas as minha filhas não as tiro do coração, nem da cabeça: uma delas disse-me quando vim: Ó mãe, não vais lá ficar outra vez?! Não, filha, disse-lhe esperançada…”

Esta gente deste hospital é boa gente e se não fazem mais é porque não podem fazer recordes. Estes são para os que mandam, agora ou em tempos idos. É que os teres não abundam, porque são preciso metê-los nos estádios ou acudir a fábricas (e bem) que vão ameaçando o labor de toda uma vida de milhares de trabalhadores!

Ganhou-se a aposta (em estádios) ganhe-se agora a aposta, em tempo recorde, de dotar o País de melhor saúde, de mais segurança, de maior esperança num mundo melhor para todos. É porque gene-rosidades não faltam neste rectângulo! Que as “catedrais” de futebol, pomposamente proclamadas pela turba multa se transformem, também, em “catedrais” de saúde, de matar fomes, de dar emprego a 450 mil à procura. A luta só se vencerá com todos. São gotinhas que não se vêem, mas podem ser das gotas de uma Teresa de Calcutá, que ela mesma reconheceu serem, efectivamente, gotas, mas que bradaram em todo o mundo. Bradaram! Haja esperança!