1 – A história dos conclaves regista também alguns episódios pouco edificantes, ou mesmo ridículos. Ainda que sem o telhado na sala de conclave – para facilitar a descida do Espírito Santo, diriam alguns! – os eleitores cumpriram, por vezes, o bom humor de um dos recentes Papas, que contava esta anedota: “Jesus Cristo pediu ao Pai do Céu uma explicação: – Meu Pai, quem são os clérigos? – Meu Filho, vai perguntar ao Espírito Santo. E o Espírito Santo deu a explicação: – São uns senhores muito piedosos que, antes de fazerem alguma coisa, Me invocam; mas, quando Eu chego, muitas vezes, já eles decidiram tudo!”
2 – As situações pouco edificantes resultaram sempre da intromissão dos senhores, dos políticos; foram consequência da prevalência dos cálculos humanos sobre a serena obediência ao Espírito; resultaram dos vetos, dos jogos de interesses, da perfeita ignorância da missão da Igreja e do ministério petrino. Mesmo assim, tais situações podem recordar-nos que a Igreja é santa na sua fundação, no Espírito que a anima; mas carrega o pecado dos humanos que a compõem. E nem tudo foi perdido, já que, nessas circunstâncias, algumas vezes a ciência, a arte, a organização e a administração se revelaram manifestações enriquecedoras do património oferecido pela Igreja à Humanidade.
3 – Não é ausência de liberdade e consciência de escolha o diálogo que os cardeais eleitores possam realizar previamente entre si, em busca da percepção do que o Espírito queira dizer à Igreja, na compreensão das prioridades que se coloquem ao serviço da Igreja no Mundo de cada tempo e cada lugar. Nem será de estranhar que diferentes perspectivas da vida eclesial, que a diversidade de movimentos e tendências vivam alguma tensão, na busca da verdade. A manifestação do Espírito não é linear; o debate torna-se esclarecedor e enriquece, abre horizontes.
4 – Quem analisa, por dentro e com amor à Igreja, imbuído do espírito de missão, sensível às circunstâncias do Mundo, os conclaves dos últimos cem anos, não pode deixar de dar graças a Deus, pela forma explícita como o Senhor acompanha o Seu rebanho. Com surpresa para muitos, da clausura dos cardeais saíram verdadeiros dons inestimáveis de Deus à Sua Igreja, para bem da Humanidade, mau grado aqueles que desejam tornar a mesma Igreja insignificante reclamem, frustrados, porque o Espírito lhes escapa.
5 – Para quem interessa, sem dúvida, o relativismo desintegrador do Homem, a anomia moral resultante da fragmentação dos princípios, a nova religião do laicismo, a tolerância que é diluição de qualquer identidade…, incomoda a perspectiva de um sucessor de Pedro que se afirme pelo serviço da Verdade, pela insistência na clareza e segurança da Fé, como poderá ser o nosso papa Bento XVI. Graças a Deus, quando alguém nos inspira a “deitar a mão ao arado sem olhar para trás” e a mantê-lo firme, para tornar a terra apta para a sementeira.
