PROCLAMAÇÃO DA PALAVRA E ACONTECIMENTO SACRAMENTAL (3)
2.A Páscoa realiza a Palavra
Na sua relação com o conjunto da economia da Salvação, o acontecimento pascal pode descrever-se como o ponto preciso no qual se recolhe, no seu acto definitivo, toda a Palavra, enquanto ela é, ao mesmo tempo, expressão do desígnio divino nas suas intervenções salvíficas e expressão da vontade de Deus no que concerne à atitude do homem-sob-a-graça. Isto é suficientemente bem conhecido. Sublinhe-se, contudo, que, se o Acontecimento é “uma vez para sempre”, de agora em diante irrepetível, deve-se, entre outras coisas, ao facto de que nele tem o seu Ámen as diversas revelações do plano divino e os múltiplos chamamentos dirigidos aos homens ao longo da história aberta pela Criação e em marcha para um termo desconhecido (cf. II Cor 1, 19-20). Ele recapitula, na unidade, o conjunto das etapas passadas e futuras, da economia da graça. Jesus aparece à fé da comunidade apostólica como Aquele no qual Deus se anuncia de uma forma plena e definitiva, precisamente porque no acto da Páscoa se realiza, no sentido forte que a Escritura dá a este termo, não somente o conteúdo essencial do desígnio do Pai, como também o seu caminhar no destino histórico do homem. Então, de facto, o Deus da Aliança exprime-se em plenitude, ao mesmo tempo, como Aquele que salva e como Aquele que não salva o homem senão pelo próprio homem. O Acto de Deus em Jesus Cristo coincide, pois, com a Palavra suprema de Deus à humanidade. Isto concorda, por outro lado, com a natureza da Palavra (Dabar) tal como a tradição bíblica a concebe: passagem ao acto de um certo impulso que sobe do mais profundo do coração do que desta forma revela o segredo, realidade eficaz que causa no que a recebe uma situação respondente ao desígnio daquele que a profere. O Acontecimento pascal realiza “uma vez para sempre” a Palavra. As expressões da Escritura, Antiga e Nova, traduzem e explicam a sua densidade de uma forma inteligível em função das circunstâncias, dos ritmos da história, a fim de que seja verdadeiramente proposta a liberdade do homem e a sua decisão. Em sentido inverso, por outro lado, a Páscoa do Senhor é a chave que permite às Escrituras encontrar o seu autêntico sentido: projecta sobre elas a realidade profunda que procuram anunciar nas categorias e nos esquemas humanos. Vê-se como o Acontecimento pascal se situa, pois, no centro das Escrituras, esclarecendo-as, mas sendo, ao mesmo tempo, esclarecido e descoberto por elas, uma vez que foram decifradas e “abertas” à sua luz. Assim é radicalmente impossível separá-lo do conjunto da economia da Palavra. Por todo o lado o chama. Não existe mais que uma osmose com ela. Se ele é a sua única razão de ser é porque ela o une ao espírito e à liberdade do homem.
3. A Palavra do sacramento
O acontecimento eucarístico – comunhão do crente no Acontecimento para receber a Salvação de Deus na fé, na acção de graças e na decisão de vida – exigirá também, vê-se agora porquê, a relação com as Escrituras. O Memorial (zikkaron, em hebraico) da Páscoa não pode ser celebrado e vivido na sua verdade e na sua densidade de acontecimento da Aliança a não ser que se explicite numa palavra proferida aqui e agora ao homem e que o torne inteligível, portador de um oferecimento gracioso e de uma exigência que o crente pode captar.
Certamente esta revelação da intenção divina de Salvação e da sua modalidade concreta realiza-se já de uma forma fundamental nos próprios ritos sacramentais. Se estes são “sacramentos da fé” é porque suscitam a fé do crente ao expressar sob sinais e símbolos o que Deus se propõe realizar em proveito do próprio pela sua mediação. Isto vale a respeito das palavras (a forma dos escolásticos) mas também dos elementos materiais (matéria), na condição de serem compreendidos, como se deve, em função da simbologia que lhes dá o conjunto da história da Salvação. A água do baptismo, por exemplo, evoca a Criação inicial, o grande acontecimento do Êxodo, a profecia de Ezequiel, o baptismo de Jesus, o sinal de Caná, a conversa com Nicodemos e com a samaritana, o cego de nascença, a palavra de Cristo no momento da festa dos tabernáculos, o coração trespassado. Por este simbolismo, ligado à significação que o homem dá espontaneamente à água e que as palavras sacramentais põem no seu contexto imediato, Deus diz ao fiel: «Eu te proponho entrar aqui e agora na Nova Criação, na do verdadeiro povo de Deus que a história de Israel preparava e que o Senhor inaugurou na sua Páscoa, a fim de que gozes da plenitude da vida». E o mesmo vale do sinal do Banquete de festa, sobretudo se se liga com o memorial do Banquete pascal e com a grande esperança do Banquete do Reino. (Na realidade o sinal das bodas, o da unção, etc., têm também uma história enraizada no destino da Aliança de Deus com o seu Povo). Esta revelação do projecto divino pelos ritos representa, sem dúvida alguma, o único anúncio verdadeiramente essencial ao sacramento, aquele sem o qual não haveria sacramento. Compreende-se que em certos casos isto pode ser suficiente, como provavelmente o foi nas primitivas eucaristias ou na prática corrente do baptismo que noutros tempos estava ligado à liturgia da Quaresma, mas que se poderia celebrar agora, pelo menos quando se trata de crianças, à margem de toda a verdadeira liturgia da Palavra. O rito não depende então por si mesmo mais que daquilo que Deus realiza nele.
SDPL
