Partilhando Em 25 de Junho do ano transacto D.António Marcelino escrevia neste jornal: “Meio envergonhado e a tentar ocultar-se, em pleno dia, na parede da rua a que se encostara já sem forças, pediu-me algum dinheiro para regressar e para comer. Viera mais uma vez do norte do distrito, para oficializar os papéis. Sem estes, ninguém lhe dava trabalho. Uns trinta anos, se tanto. Rosto triste e marcado pela saudade (ou pela fome e pela desilusão?…), olhou a suplicar que, ao menos eu, acreditasse nele e o ajudasse.
Recuei no tempo umas décadas para recordar. Fechei os olhos e divaguei por terras de França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Estados Unidos da América e Canadá. Vi, naquele rosto macerado, o rosto de muitos portugueses desse tempo. Uns a contar-me como haviam vencido, outros a lembrar a dureza dos primeiros tempos e ainda outros a dizerem, quase em ar de confidência, que estavam ansiosos por regressar, de tal modo a vida lhes fora madrasta.”
Analisando o reverso da medalha, D. António escreveu: “Quarenta anos passados, os imigrantes invadiram a nossa terra, vindos da África, do Brasil e do Leste europeu”. Apelou para que Portugal tivesse “uma grande compreensão pelos imigrantes, porque é terra de gente que viveu a mesma aventura e, só depois, deu novidade aos meios rurais, dinheiro ao Estado, formação aos filhos, iniciativas novas ao mundo do trabalho”. Salientou, então, doer-lhe “a alma quando os vejo a mendigar, não como viciados da pedincha, que também os há por aí, tanto portugueses como estrangeiros, mas sentindo a necessidade de trabalho, porque sem ele não há pão, nem para eles nem para a família, esteja ela no seu país ou a viver a mesma aventura aqui nas nossas terras”.
Magiquei muito este fim-de-semana neste drama dos imigrantes. Também eu vi, na década de 70, os nossos emigrantes em terras de França, nos bidonvilles, de Paris. Fiz várias repor-tagens sobre o viver daqueles nossos conterrâneos. Viviam ali em autêntica escravatura de trabalho. Esses dramas impressionaram-me pelo que já aqui descrevi neste jornal. O fado português que ali ouvi compensou-me! Que momentos!… Escutei e escrevi as lamentações de quem teve de atravessar a fronteira.
Por isso, quando lia os jornais de fim-de-semana dei-me comigo a interpelar-me!
Por obrigação (etnias, minorias) não posso deixar de juntar a minha voz a todos aqueles que, de uma maneira ou outra, reclamam que é necessário aperfeiçoar a lei, regulamentá-la quanto antes. Para além do que tem vindo a proclamar o nosso Bispo, aparece (vid. pág. 7) de novo, agora a voz de D. Januário, Presidente da Comissão Episcopal para este sector, a insurgir-se nos grandes Órgãos da Comunicação Social contra uma lei que ainda considera desumanizante.
Rui Osório (e outros) jor-nalista e crítico do JN, pessoa sempre atenta a estes e outros fenómenos, não só de hoje, mas ainda antes do 25 de Abril, também ele comentou: “Rigor na regulamentação dos fluxos migratórios não significa necessariamente cedência a uma visão meramente economicista do papel dos imigrantes, nem sequer dificultar-lhes tanto a vida que será o mesmo que atraí-los para velhas e novas máfias que os exploram”.
Conheci, como referi, em tempos já remotos, os nossos emigrantes nos arrabaldes de Paris, da Venezuela, África do Sul. Recentemente, por terras da Hungria e nas fronteira da Ucrânia, conheci, também, as carências daqueles povos na procura de novos mundos de sobrevivência. Por isso também eu clamo que se faça justiça a quem quer trabalhar connosco, honesta e legalmente.
