À Luz da Palavra Hoje, pela palavra da liturgia, somos convocados à transformação das nossas vidas, à conversão, à mudança de mentalidade e de atitude, de modo que Deus e os seus valores passem a ocupar em nós o primeiro lugar. O Deus libertador propõe-nos que passemos da escravidão do egoísmo e do pecado a pessoas libertas, que vivem uma vida plena, sob a acção do Espírito Santo.
No evangelho, Lucas apresenta-nos um discurso interpelativo de Jesus sobre o tema da conversão, citando dois exemplos históricos de acidentes e contando a parábola da figueira plantada na vinha. Esta vinha simboliza o povo de Deus e a figueira é cada um de nós, que pertence a este povo. O dono da vinha é o Pai e o vinhateiro é Jesus, que constantemente intercede por nós. Mas a transformação da nossa vida não pode ser adiada constantemente. Esta quaresma é o ano a mais que o Pai nos concede para que em nós cresça um novo ser em Cristo. Em que é que a minha mentalidade deve mudar para que eu dê prioridade aos valores do Reino e aceite as propostas de Jesus na minha vida, de modo a intervir, como intermediário de Deus, na transformação da sociedade?
A realidade actual já está prefigurada no antigo povo de Deus. O livro do Êxodo, na primeira leitura, conta-nos o maravilhoso episódio da ternura de Deus para com o seu povo, mergulhado na escravidão do Egipto: “Eu vi a situação miserável do meu povo; escutei o seu clamor. Conheço as suas angústias. Desci para o libertar e levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel”. Moisés, figura de Jesus libertador, é o intermediário. Entra na intimidade de Deus, através da sarça ardente, acolhe a missão que Ele lhe confia e escuta o seu nome: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob”, isto é, o Deus vivo e dos vivos. “Eu sou Aquele que sou”, Aquele que sofre convosco e vos quer e pode libertar, para que sejais felizes. Hoje, a humanidade continua a gemer por uma libertação política, cultural e económica. E, onde alguém luta por uma sociedade mais justa e fraterna, lá está Deus a viver com paixão o sofrimento dos explorados. Tenho consciência desta realidade? Estou disposto a arriscar a minha vida, como Moisés, para colaborar com Deus na libertação dos meus irmãos e irmãs?
“Não murmureis”, como os vossos antepassados, os quais morreram no deserto, sem chegarem a ver a terra da promessa, exorta Paulo aos cristãos de Corinto, na segunda leitura. É que só murmura contra Deus quem nunca entrou na sua intimidade, quem nunca sentiu o pulsar do seu coração de Pai/Mãe e compreendeu que Ele vela ternamente por nós e, pacientemente, espera que dêmos fruto de boas obras. Ele acompanha-nos, agora, no seu Filho Jesus, novo Moisés, vinhateiro que cava, aduba e rega a figueira que és tu e eu, para que os nossos gestos sejam de solidariedade com os mais fracos e oprimidos, de modo a sermos coerentes com a fé que, comunitariamente, celebramos.
III Domingo da Quaresma – Ano C
Ex 3,1-8a.13-15; Sl 102 (103); 1 Cor 10,1-6.10-12; Lc 13,1-9
