Notas Litúrgicas 3. As Escrituras e o homem moderno
É verdade que a utilização das Escrituras pela liturgia sofre de uma evidente falta de crítica. De facto, nem sempre os textos são suficientemente adaptados. E também a reforma empreendida pelo Concílio Vaticano II não se orienta neste sentido. Pode compreender-se, pois dificilmente a liturgia pode romper com o que até ao presente foi a sua lei e um dos canais privilegiados da transmissão das Palavras de Deus aos cristãos. A solução do problema da adaptação do texto ao ouvinte moderno é, pois, procurada noutra direcção: num reequilíbrio do conjunto da liturgia da Palavra, no que a homilia deve exercer plenamente a sua função, com seriedade, teológica e pastoral, tal como exige a sua natureza. Pois ela é, também, um serviço da Palavra, serviço essencial, no qual se realiza, com todo o realismo, a apresentação da Escritura ao homem do nosso tempo. Parece que este caminho se solução é provavelmente a única saída possível.
De facto, recordou-se amplamente até aqui que a proclamação da Escritura na celebração do Memorial da Páscoa tinha por fim fazer ouvir ao cristão o que Deus quer dizer-lhe aqui e agora para a sua Salvação. Acrescente-se que isto não se pode realizar senão por uma compreensão do sentido objectivo dos documentos nos quais o Povo de Deus inscreveu o que percebia do conteúdo da Revelação. Existe uma “iniciativa do sentido” – expressão de P. Ricœur –, um valor objectivo que precede o fiel, que o ultrapassa, e no qual deve entrar para compreender o que Deus quer dizer-lhe. Este sentido encontra-se necessariamente ligado à letra da Escritura, até tal ponto que não poderia chegar ao homem de hoje sem que este faça uma paragem no próprio texto. Ora bem, a Palavra de Deus tal como a Bíblia nos transmite é sempre a Palavra de Deus na palavra humana, e palavra humana como Palavra de Deus, “Palavra de Deus na palavra histórica”, no dizer de H. Schier. Ela não se limita a revestir-se com palavras humanas, com uma veste facilmente renovável. Ela desposa-se com a lei do pensamento e da palavra do homem com o que estes implicam necessariamente de complexidade, de imprecisão e também de recurso às imagens, aos símbolos e aos mitos (veja-se J. Daniélou, The problem of Symbolism, in Thought, 1950, 423-440). Porque o homem não exprime a sua perpecção das realidades mais misteriosas e mais profundas do seu ser ou da sua vida simplesmente por ideias claras e por conceitos. O amplo mundo da simbólica tem aqui um papel chave. Passando em e pela linguagem humana, a Palavra de Deus deve, pois, encontrar-se igualmente ligada às imagens, aos elementos, inclusive míticos. Acrescente-se que ao escolher revelar-se numa história de homens, Deus aceitou não fazer conhecer a sua acção e a sua vontade senão através da interpretação daqueles em proveito dos quais se manifestou em tal ou qual momento da evolução da humanidade. Deus quis assim que a Palavra dita no passado, mas, apesar de tudo, destinada a permanecer sempre actual, não seja entregue senão encarnada nas formas de pensamento e das experiências do homem de uma certa época, com os seus limites e deficiências. Impossível, pois, penetrar na totalidade da mensagem que Deus dirige aos seus hoje, se se fizer abstracção dos modos de expressão e da linguagem pelos quais os testemunhos a conservaram para a transmitir. Pretender extrair de um conjunto de imagens e de mitos um conteúdo condensado de verdade objectiva, que subsistiria separado do seu ambiente original e permitiria prescindir do mesmo, é uma empresa que não pode senão dissecar e empobrecer o próprio conteúdo da Revelação. A liturgia realiza, sem dúvida alguma, uma função essencial na vida da Igreja, proclamando na assembleia dos crentes, se não o conjunto, pelo menos uma ampla parte dos Livros Santos, sem discriminação. Dificilmente pode renunciar a esta missão.
SDPL
