Os pobres dos mais pobres!…

Partilhando A terra tremeu, esburacou-se; o furacão fez vendaval impiedoso, devastador. Os telemóveis agitaram-se, e fizeram-se ainda ouvir ao longe os ecos de mais uma tragédia… Os comboios partem-se, rasgam-se… Os gritos lancinantes ecoam ao longe, ao largo, ao perto! Mais um país no caminho de um qualquer Gólgota, nesta Quaresma em que a Paixão de Cristo anda por aí, para reflexão de alguns, curiosidade, porventura, doentia, de outros, meditação para quem acredita num Messias prometido, num Cristo Libertador!

Espanha, Espanha, como tu tens sido mártir há tantos anos! Ainda eu era muito criança, quase de cueiros no rabo e lá nas minhas terras de serranias agrestes e prados já ouvia dizer ao meu saudoso Pai:” Olha, filho, a guerra na Espanha está muito má!” Tinha poucos anos, ajudava a guardar vacas nos lameiros do Paúl, e já esses ecos me entravam nos ouvidos! Já!

A guerra nunca mais parou, acabou uma entre irmãos, surgiu outra também entre hermanos! Agora virá de fora! Virá?! Venha de onde vier, o massacre foi tenebroso a que ninguém pode ficar indiferente. E não é tempo de aproveitamentos. Nada disso. É tempo de reflexão, muita!… É tempo de chorar os mortos; é tempo de cuidar dos vivos, é tempo de esperança! É tempo de tratar, proteger os que mais precisam, os incautos, os indefesos! E não pode haver troca de moeda.

Este fim de semana todo o mundo olhou para um mundo que não sabe para onde caminha! Todo o mundo parou para ver a tragédia de Espanha. Os jornais enxamearam-nos de notícias, as televisões meteram-nos, indiscriminadamente, nos olhos imagens de um vulcão de ódio, mas também de muita resignação; as rádios parece que faziam relatos de quaisquer clubes do mundo, dos grandes, ou pequenos! Os templos também se enchiam, os crentes oravam, embora silenciosamente, e as velas faziam chama de saudade, de eternidade!

Dessa avalanche de clamores, de relatos, eu reflecti sobre uma das peças de um dos correspondentes em Madrid.

Essa reportagem (porque de reportagem se tratava, feita in loco), num dos locais da tragédia, dos que mais sofrem, na terra do novelista, dramaturgo e poeta, Miguel de Cervantes, em Alcalá de Henares, denuncia o drama ao vivo, como pertence ao repórter que o é. Diz-nos o que os seus olhos vêem, os que os seus ouvidos escutam, do que o seu coração transborda. “Os familiares ainda não tinham chegado, mas já tinha chegado muita gente a dar sangue”. Põe a falar muita gente atingida, a chorar: “Isto é um atentado contra os trabalhadores”, diz um dos escutados e o repórter, Ruben Marcos, correspondente do JN, em Madrid, vai encenando uma película real, palpável: “Tinha razão. Os atentados atingiram os mais humildes. Os que acordam mais cedo para trabalhar, os que moram nos subúrbios, nas zonas pobres da capital. O bairro de El Pozo del Tio Raimundo foi considerado até aos anos 90 uma zona marginal onde não há muito tempo ainda havia favelas. Lá moravam os mais pobres dos pobres do bairro de Vallecas. Um dos comboios explodiu nesse bairro…”

Mais comentários para quê?! É tempo de reflexão, de políticos ou simples cidadãos. É!…