Notas Litúrgicas 4. O lugar da homilia
Posta a questão da interpretação das Escrituras, tal como se abordou na passada semana, caberia perguntar se nos haveríamos de contentar, apenas, com uma mera repetição dos textos sagrados?
Se se optasse por esta solução de facilidade atraiçoar-se-ia de outra forma a sua própria missão. Ao apresentar a letra das Escrituras é necessário, pelo contrário, buscar e procurar fazer emergir a realidade profunda que esta comporta, tendo em conta o seu decurso na história. É à homilia – de que se descobre novamente o lugar essencial de primeira ordem – que pertence operar a tradução da Palavra para os que a escutam hoje e para os quais está destinada. Isto exige que esta forma bem típica de “pregação” se ponha realmente ao serviço do texto, não pretenda nem suplantá-lo nem torná-lo vão. Explicando a intelegibilidade, o sentido da perícopa proclamada, fazendo perceber, se for necessário, a diferença entre o acontecimento em causa e a sua interpretação pela comunidade que o conta, pertence-lhe como missão própria permitir ao ouvinte descobrir o que Deus quis dizer-lhe e quer dizer-lhe aqui e agora. A finalidade em causa tem, pois, uma significação diferente daquilo que se chama hoje “desmitologização” (cf. K. Rahner, La tâche de la prédication, face au problème de la démythologisation, in Concilium 33, 1977, 26). Consiste em fazer passar a Palavra de Deus da língua dos homens de uma certa época à língua do homem de hoje, vigiando com cuidado para que não perca nada do seu conteúdo. Um tal esforço requer evidentemente que se ajude o ouvinte a superar o obstáculo dos mitos e dos imaginários de todo ultrapassados, mas mais por uma interpretação que por uma supressão ou um não receber, e não esquecendo que, antes de ser inimigo a vencer, o universo mítico e simbólico tem um poder relevante que há que saber captar. Depois da homilia, o crente deve encontrar gosto em voltar à letra do texto para embriegar-se do seu espírito e compreender toda a sua densidade. Terrível responsabilidade, diga-se, a da homilia, cada dia mais exigente. A Igreja será levada a dar-lhe cada vez mais importância.
5. A significação da Palavra para a existência
Este deter-se sobre a homilia introduz-nos numa última forma de interpretação da Escritura na liturgia eucarística. Pela sua selecção de perícopas e pelo seu conjunto, pelo seu clima de louvor, pela sua oração e, evidentemente, pela homilia, esta quer, de facto, que cada crente da assembleia, depois de ter percebido o verdadeiro sentido da Palavra, se aproprie para marcar com ela a sua vida pessoal, o seu compromisso eclesial. Do “sentido” é necessário passar à “significação”.
A liturgia não se limita, pois, a interpretar. A liturgia apresenta além disso o conjunto da Escritura, particularmente o Novo Testamento, sob uma forma muito típica, completamente orientada para a apropriação do sentido pela sua passagem à decisão do crente. Por um lado, quer que decifrando o seu próprio destino à luz da Páscoa, o cristão perceba o mistério profundo que sem Jesus não não faria senão entrever. Por outro lado, deseja que aprenda aquilo que em Jesus Cristo Deus lhe pede que faça com esta existência acerca da qual ele vem a descobrir a lei e a inserção na comunidade eclesial. Numa palavra, leva a Palavra para a “significação”.
SDPL
