IV Domingo da Quaresma – Ano C

À Luz da Palavra Hoje, a Palavra assegura-nos que todos somos pecadores salvos em Cristo, porque Ele restabeleceu os laços que havíamos quebrado com Deus, admitindo-nos à sua intimidade e restituindo-nos a dignidade, que adquirimos pelo baptismo. “Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação”, escreve Paulo na 2ª leitura. Estamos diante de dois grandes momentos da reconciliação: a original e fundante, que nos é adquirida por Cristo, e a do ministério da reconciliação, que é, por Cristo, concedido à sua Igreja, para que cada pessoa e comunidade cristã possam continuar a desfrutar do ministério do perdão ou reconciliação.

O abismo da misericórdia de Deus é-nos apresentado por Lucas, na mais bela página do seu evangelho, através da parábola do pai bom que tinha dois filhos. Esta história fictícia, contada por Jesus para interpelar os escribas e fariseus, que contestavam a sua proximidade com pecadores e publicanos, revela-nos o excesso de amor deste pai, que trata os seus dois filhos como pai algum jamais poderia fazer. O filho mais novo aspira a uma liberdade sem responsabilidade, ao uso e abuso de bens que não tinha ganho. Exige a sua herança ao pai, como que antecipando a sua morte. O pai, por sua vez, respeitando a sua liberdade, entrega-lhe a parte que lhe caberia por sua morte e deixa-o partir. O filho mais velho continua em casa, fechado sobre si mesmo, tendo como refúgio e segurança do seu bom comportamento a casa paterna.

O mais novo, jovem irrealista e irresponsável, passando, simbolicamente, por cima do cadáver do pai, quer a todo o custo, satisfazer o desejo incontido do prazer que o abrasava: “partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta”. E, os “amigos” também se esgotaram e ele ficou só. Encontrou um trabalho impuro, para um judeu, que nem dava para se alimentar. Ficou na miséria física e espiritual. Ele que tinha um pai rico, com criados que viviam na abundância! Então, caiu em si. Este é o momento crucial, o da tomada de consciência do estado a que chegara. Arrependeu-se e decidiu ir ter com o pai. Ensaiou o diálogo. Mas, no distanciamento do filho, o pai havia-o guardado sempre no seu coração, sem qualquer ressentimento, esperando, com lágrimas, o seu regresso. Mal o avistou “encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos”. Tudo invertido, pensamos nós. E foi tão grande a alegria, que houve festa. O pai restitui-lhe a dignidade e a confiança de filho, e elevou-o ainda mais! Que pai magnânimo e excessivo, diríamos! Se fôssemos nós… O filho mais velho não reconheceu o seu irmão, e recusou-se a participar na festa. Mas o pai, misericordioso para ambos, veio instar com ele, ajudando-a a compreender e a perdoar. Será que os ouvintes de Jesus perceberam a lição? Ou ficaram de fora, como o filho mais velho? E tu, de que lado estás? Jesus, porém, falava de um pai que tem um nome: Deus, Pai/Mãe de ternura e misericórdia!

IV Domingo da Quaresma – Ano C

Js 5,9a.10-12; Sl 33 (34) ; 2 Cor 5,17-21; Lc 15,1-3.11-32