Na Igreja nunca faltaram mulheres que foram referência

Jesus Cristo foi um arauto da inclusão e deixou o fermento

de uma nova realidade

Se olharmos para a história da Igreja, encontramos, de facto, mulheres que foram referência, mas não podemos ignorar que isso “não esgota o seu silenciamento ao longo destes séculos todos”, afirmou a doutora Manuela Silva, economista, professora universitária e vice-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, no salão do Seminário de Santa Joana Princesa, no sábado, numa conferência organizada pelo ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro), aberta a alunos, professores e demais pessoas interessadas.

Partindo para a sua reflexão do livro “Dizer Deus – imagem e linguagens”, recentemente publicado, de que foi coordenadora e que congrega o pensamento de teólogas e cristãs que se exprimem na base da Teologia Feminista, a conferencista defendeu que a humanidade é feita de homens e mulheres, “o que não podemos ignorar”. Nesse sentido, adiantou que teremos, certamente, de rever as estruturas eclesiais, de reorganizar as nossas comunidades, de pensar a forma como partilhamos o poder dentro delas, bem como de estudar novas formas de expressar a fé nas celebrações.

Ao considerar que a Teologia Feminista defende a reflexão a partir da identidade das mulheres e da igualdade do género, o que tem ficado à margem na Teologia tradicional, marcadamente masculinizada, Manuela Silva garantiu que o contributo das teólogas, com a sua sensibilidade própria, vem enriquecer a humanidade e “preencher um vazio”.

“Hoje não podemos ignorar metade da população do mundo, tanto no plano civil como no plano da fé”, até porque – sublinhou – “a mulher não é o que era”. Disse que a Teologia Feminista luta para que a mulher seja sujeito e não agente passivo na sociedade, com “direito a construir o seu próprio espaço de reflexão”, mas também admitiu que há dentro dela “diferentes portas de entrada”, uma das quais pugna pelo acesso das mulheres à ordenação sacer-dotal.

A conferencista lembrou que Jesus Cristo foi um arauto da inclusão, mostrando-o claramente nas “relações que teve com as mulheres”, havendo aí “o fermento de uma realidade nova”. E acrescentou que a Igreja nascente veiculou “essa experiência do Mestre”, a tal ponto que S. Paulo diz que “não há homem nem mulher, nem judeu nem gentio”.

Manuela Silva mostrou de relance a evolução da emancipação da mulher através dos tempos, tendo frisado o grande salto que surgiu com a modernidade. Hoje, as mulheres já conseguiram a sua autonomia económica, já não precisam da autorização do marido para fazer compras ou para empreender viagens, têm acesso a todos os graus de ensino e são maioritárias nas Universidades. Também participam na vida cívica e na política, neste caso “com muitos travões, avanços e recuos”, referiu.

Entretanto, afirmou que urge criar novas mentalidades, sendo necessário que a mulher se assuma como sujeito activo do seu futuro, que se afirme na liderança e que reivindique “o reconhecimento da sua identidade, sem discriminações”. E se é verdade, como salientou, que tem havido progressos no âmbito da sociedade civil, não deixou de frisar “as resistências que se têm encontrado ao nível das religiões”.

Por outro lado, adiantou que a Igreja Católica reconhece a dignidade das mulheres, que “estão na catequese e na educação cristã dos filhos”, mas afiançou que a Teologia que se conhece tem sido fruto apenas “do labor masculino, que reflecte os seus conceitos”, enquanto esquece, muitas vezes, o que elas pensam. Assim, e porque recusam a exclusão, têm de superar barreiras que impedem a sua identidade no seio da sociedade e da Igreja, “por vezes a partir da contestação”. Por que motivo é que Deus há-de ser apresentado como Pai Omnipotente e não como Mãe Acolhedora? – foi pergunta que Manuela Silva deixou aos que a ouviram em Aveiro.