A Festa (3)

Notas Litúrgicas 2. A festa cristã

A festa, como categoria da comunidade cristã, tem muito a ver com a festa humana, embora tenha uma evidente originalidade. A dinâmica é a mesma: a linguagem dos símbolos, a força comunicativa do ritual, o clima comunitário, a tensão entre o acontecimento celebrado e a sua actualização sacramental… Mas a festa cristã supõe também uma experiência que se torna irredutível às outras. O realmente novo da festa cristã são os seus conteúdos, os valores celebrados (acontecimentos, na verdade, salvíficos), a sua centralidade em Cristo Jesus e na sua Páscoa, a comunhão a nível mais profundo e transcendente…

A) Deus ludens

No fundo da festa cristã está a evolução que ultimamente se deu para uma compreensão muito mais positiva do próprio Deus. O Deus que a Bíblia nos apresenta não é longínquo, mas próximo, o Deus da alegria e da vida, o Deus do «sim», e não precisamente o das proibições ou do castigo.

O Deus faber, criador e omnipotente, o Deus do poder (reflexo, talvez, de uma sociedade montada sobre estruturas de poder e produtividade) descobre-se também como o Deus ludens, muito mais em consonância com os valores de humanismo e liberdade tão apreciados hoje. Já o livro dos Provérbios falava da sabedoria criadora em termos lúdicos: “quando assentou os céus ali estava eu (a Sabedoria)… e era eu todos os dias a sua delícia, brincando na sua presença todo o tempo, brincando pelo orbe da terra” (Prov 8, 27-31). E, de facto, Deus mostrou-se na sua obra cósmica cheio de fantasia imaginativa, alegria e bênção. Como diz a IV Oração Eucarística: “Deus de bondade e fonte de vida, criastes o universo para encher de bênçãos todas as criaturas e a muitas alegrar com a claridade da Vossa luz”. O Deus livre e feliz, o Deus da dança… O primeiro a «fazer festa» é o próprio Deus.

B) Christus ludens

A essência festiva de Deus mostrou-se-nos palpavelmente em Jesus Cristo, o Senhor da vida, amante dos valores, das crianças, de todo o ser humano, da natureza. O que continuamente oferece saúde, vida e perdão. O que compara o Reino a um banquete de casamento, o que se apresenta a si mesmo como o noivo, em cuja presença não há lugar para o jejum. Sensível às alegrias e dores humanas, o que fala dos pássaros e dos lírios e da alegria da mãe que dá à luz ou do agricultor que colhe a sua colheita. O Cristo livre, soberanamente livre diante de todos, cheio de esperança e de alegria, que quer comunicar em plenitude a sua própria alegria aos seus, e se queixa de que a sua geração não quer participar na sua festa, como as crianças que tocam flauta na praça do povo e não encontram quem queira bailar ao seu som. O Cristo cheio de humor, que come e bebe, que se autoconvida para casa de Zaqueu, que converte a água em vinho num banquete de casamento; o Cristo cheio de paradoxos, tido por louco, que morre entre risos, mas que vence a morte e ressurge para a nova vida. O Christus ludens, ao qual Cox (A festa dos loucos) apresenta como «arlequim», o palhaço que sabe rir e dar esperança aos outros; que conjuga com profunda alegria interior este humanismo com o cumprimento da sua missão messiânica, que o leva à máxima solidariedade com os homens e à máxima entrega obediencial ao Pai na paixão e morte. Não é acaso esta morte pascal de Cristo a maior prova de que Deus toma a sério a nossa felicidade e libertação total, não é a máxima «glorificação» do Filho do homem e o melhor motivo de esperança e festa para a humanidade?

As primeiras gerações exprimiram magnificamente a sua visão de Cristo no hino que nos legaram: «Ó luz gozosa… santo e feliz Jesus Cristo».

SDPL