XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano B

À Luz da Palavra Hoje a Palavra situa-nos numa realidade profundamente divina e cristã, mas muito difícil de aceitar por parte de muitos católicos, a saber, que o Espírito de Deus, a exemplo do vento, sopra onde quer e não sabemos de onde vem nem para onde vai (cf. Jo 3,8). Isto é, o Espírito Santo exerce a sua maravilhosa acção em qualquer homem ou mulher, seja qual for a sua condição social e religiosa e onde quer que se encontre.

Na primeira leitura, tirada do livro dos Números, Moisés critica Josué, seu ajudante, porque este manifesta ciúmes pelo facto dos homens escolhidos por Moisés terem começado a profetizar pela acção do Espírito. E acrescenta: “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!”. Por sua vez, no Evangelho, Marcos apresenta-nos Jesus a repreender os discípulos por terem impedido um homem de expulsar os demónios, porque ele não andava com Jesus. “Não o proibais, disse Jesus, porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de mim. Quem não é contra nós é por nós.”

Actualizando estes textos, podemos afirmar que o Espírito não é apenas privilégio de alguns, nomeadamente dos diáconos, dos padres e dos bispos ou de alguns cristãos e cristãs, mas é dado a toda a comunidade do Povo de Deus e está vivo em todos os homens e mulheres que abrem o seu coração ao dom de Deus e que aderem ao projecto de Jesus Cristo, qualquer que seja o papel que lhes é atribuído. Ninguém nem nenhuma Igreja tem o monopólio do Espírito. Em vez de nos sentirmos ciumentos por este facto, somos antes chamados a reconhecer os sinais de Deus e a alegrarmo-nos diante da contemplação dos gestos de amor, de paz, de justiça, de solidariedade e das descobertas para o avanço da ciência e da técnica ao serviço do bem comum. Nesta perspectiva, os líderes das comunidades, a exemplo de Moisés e de Jesus, só poderão desempenhar com eficácia a obra de Deus, que lhes é confiada, na medida em que repartirem tarefas e responsabilidades e ouvirem os pareceres dos membros das suas comunidades. Assim, a constituição e o bom funcionamento dos conselhos de pastoral e os económicos, as assembleias, as delegações para a coordenação de serviços paroquiais ou diocesanos, entre outros, devem ser procedimentos habituais nas nossas comunidades, não devendo por isso estar apenas dependentes do “espírito democrático” deste padre ou daquele bispo. Cada cristão ou cristã, cada homem ou mulher de boa vontade está possuído pelo Espírito que o habilita para colaborar na construção da Igreja. E, não raras vezes, os desafios do Espírito passam por aqui.

Por fim, Tiago, com a sua linguagem violenta, critica aqueles que vivem, em primeiro lugar, para amontoar bens materiais e que descuram os verdadeiros valores e critica também os ricos que acumulam bens à custa de injustiças. Não é cristão nem cristã quem não paga o salário justo aos seus empregados, mesmo que ofereça somas avultadas à Igreja, que frequente assiduamente os sacramentos e pertença a grupos de pastoral. Não o é tão-pouco quem usa de subterfúgios para se esqui-var aos impostos, apesar de repartir os bens acumulados pela fraude.

A Palavra de hoje há-de interrogar-nos. Que tipo de cristão ou cristã sou eu? Estou aberto à erupção do Espírito, onde quer que Ele se manifeste, ou fecho-me, de forma arrogante e fanática, nos privilégios que penso já ter adquirido na Igreja?

Leituras do XXVI Domingo Comum – Ano B

Nm 11,25-29; Sl 18 (19); Tg 5,1-6; Mc 9,38-43.45.47-48