“Só tenho pena de não ter vivio esta experiência há 20 anos”

Férias Missionárias na Guiné Maria de Lourdes esteve na Guiné-Bissau de 23 de Julho a 27 de Agosto. A empresária do ramo têxtil, da Palhaça (Oliveira do Bairro), concretizou um desejo de voluntariado que já tinha há muito tempo. O destino idealizado era Timor, mas acabaram por ser a Guiné e as jovens guineenses as destinatárias do seu profissionalismo nos têxteis. Maria de Lourdes ficou tão empenhada no trabalho desenvolvido que em meados de Setembro contava ao Correio do Vouga: “Tenho a certeza de que volto. Pode demorar muito tempo, mas volto”. Quando esta edição estava a ser preparada, chega a notícia. No dia 15 de Outubro, Maria de Lourdes volta à Guiné, para continuar o trabalho iniciado e entregar uma cadeira de rodas “todo-o-terreno” à Ivone, uma das líderes da comunidade.

J.P.F.

«Há muito desejava fazer voluntariado nas missões. Pensava sempre ‘um dia… um dia’… Até que entrei numa agência de viagens para ver quanto custava ir a Timor. Não havia voos directos. Ficava muito caro. Resolvi telefonar ao Senhor Bispo e encaminhou-me para o padre Georgino [responsável pelos Secretariado de Animação Missionária]. Estive na Guiné com a Rosa Maria Teiga e a Patrícia, que trabalharam mais na animação cultural.»

«Quando cheguei, fiquei espantada com as condições. Na escola de costura de S. Paulo (nos arredores de Bissau), havia 15 máquinas de costurar, mas só funcionavam duas ou três. As meninas há semanas que só davam aos pedais, mais nada! As linhas, os tecidos, as fitas, estava tudo num emaranhado enorme. A primeira coisa a fazer foi arrumar tudo, pôr máquinas a funcionar – algumas nunca as tinha visto, e ando nisto há mais de 30 anos! –, organizar postos de trabalho.

Ao fim de dois ou três dias, só pensava: “Meu Deus, onde vim parar! Tanta coisa que é necessário para pôr estas máquinas a funcionar e aqui não há um alicate, uma chave de fendas… Com um dos meus técnicos resolvia isto com tanta facilidade; e aqui não há nada!”»

«O trabalho começou. Ensinei a bordar, a fazer malha, a costurar. Começou a gerar-se entusiasmo. Passados alguns dias, já havia muitas raparigas que queriam vender os sacos feitos. Mas não vendemos nada. Guardámos tudo para fazer uma exposição e venda no final. As meninas aprenderam também a fazer saias, blusas, lençóis…. Foi um sucesso. Venderam centenas de peças. Rendeu 47 000 francos CFA [cerca de 80 euros – quantia muito apreciável na Guiné]».

«Não há palavras para dizer o que vivi e senti. Só tenho pena de não ter vivido esta experiência há 20 anos. Mas gostava de dizer a todas as pessoas, às de mais de 40 anos, que ainda estão a tempo de se dedicarem a esta causa. Tenho a certeza de que volto. Pode demorar muito tempo, mas volto».

Um “Rolls Royce” para a Ivone

A Ivone (na última foto, à esquerda de Maria de Lourdes), professora e futuramente consagrada, é uma das líderes da comunidade de S. Paulo, nos arredores de Bissau, já no meio da floresta. É muito dinâmica; contudo, vê-se limitada na sua acção, devido à deficiência numa das pernas. Arranjar uma cadeira de rodas em África está fora de questão. Mas graças à boa vontade de algumas pessoas interpeladas por Maria de Lourdes e com a colaboração da Cáritas de Aveiro, a Ivone vai ter uma cadeira de rodas. A própria Maria de Lourdes irá a Bissau a 15 de Outubro, por três semanas, entregar aquilo a que chama o “Rolls Royce” da Ivone.