Continua a saga sobre a “heresia” de Fátima, isto é, sobre a hipótese de, no futuro, este Santuário acolher iniciativas de diálogo inter-religioso. À semelhança de outros âmbitos da vida do País, também aqui se sucedem declarações e desmentidos, como se forças antagónicas espreitassem a oportunidade de controlar a situação, impondo os seus pontos de vista, fazendo vingar o seu projecto, conquistando este espaço para desenrolar depois as suas convicções.
1. Ninguém, de boa fé, tem dúvidas de que não está na mente do senhor Bispo de Leiria-Fátima, nem do senhor Reitor do Santuário, transformar este espaço de fé católica num lugar de ambíguo sincretismo religioso. A vida do Santuário tem dado subejas provas de que este é um espaço de convergência de vida cristã católica, um lugar de irradiação litúrgica, eclesiológica e pastoral católica. Talvez não de alguns católicos, que prefeririam erguer altas barreiras de hermética visão de Igreja, de Missão, de vida de Fé, com exclusão de tudo o que não seja a sua perspectiva.
2. A Igreja tem consciência do mandato de Jesus Cristo: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado”(Mt.28,19-20). A Igreja sabe que, obediente a este mandato e movida pelo Espírito, cumpre a sua missão no porfiado esforço de fazer totalmente presente a todos os povos, a toda a humanidade, o plano do Pai, realizado em Jesus Cristo, como o único caminho plenamente livre e seguro de realização pessoal e da comunidade humana. E, ao longo dos tempos, com avanços e recuos, com as limitações próprias de quem é divino e humano, assim tem procurado servir a evangelização. Na programação e vida do Santuário de Fátima, não se vislumbra roteiro diferente deste.
3. A Igreja, ciente, por um lado, de que as “sementes do Verbo” estão no coração de todos os homens, estão mesmo na diversidade das expressões religiosas vividas na rectidão de espírito, e, por outro lado, de que “não pode dar prova mais eloquente de solidariedade, de respeito e de amor, para com toda a família humana (…) do que dialogando com ela”, projectando sobre os seus problemas a luz do Evangelho, pondo à sua disposição as forças da salvação que recebe do seu Fundador, sabe que, em vez de ceder à tentação de erguer os muros da exclusão, só é fiel a Jesus Cristo abrindo as suas portas a todos os que buscam a Luz.
4. O diálogo inter-religioso, sobretudo na forma de oração, é um caminho excelente de educação mútua, para aceitarmos a presença interpelante de Deus nas nossas vidas, a desencadear os caminhos da verdadeira conversão – de que todos precisamos! E Fátima, como convite permanente e insistente à conversão, não é atmosfera propícia para a oferta, ao género humano, desta “cooperação sincera da Igreja em ordem à instauração da fraternidade universal”, sem ambições de se servir, antes dando o gratuito testemunho da verdade, para que as formas imperfeitas de “ver o invisível”, sob o impulso do Espírito, se tornem cada vez mais próximas do rosto de Cristo?
Cristo veio para salvar, não para condenar. Quem acolhe, para propor os caminhos da salvação, realiza a missão de Jesus Cristo.
