O Harry Potter dos graúdos

O maior fenómeno literário da última década – talvez do último século – é “O Código da Vinci”, de Dan Brown. Em Portugal, já ultrapassou os cem mil exemplares e está em primeiro lugar dos tops livreiros desde Abril. No mundo, já vendeu mais de 50 milhões de exemplares. O livro vende bem, não por estar magistralmente bem escrito (está: no final do primeiro capítulo é difícil resistir a ler o segundo, e assim sucessivamente), não por falar do génio renascentista (Leonardo da Vinci paira sobre o livro, mas não é a figura central), não por ter uma “capa de verdade” para aumentar a credibilidade dos factos (logo a abrir, diz-se que todos os monumentos descritos correspondem à realidade – o que pode levar a alargar a capa da verdade a “todos os factos descritos são verdadeiros”)… Por tudo isso. Mas principalmente porque a figura central, afinal, é Jesus Cristo.

Sem querer estragar o “suspense” de quem está a ler o livro, há algumas lições a tirar do fenómeno que constitui este Harry Potter dos crescidos. A tese central resume-se nestes pontos: 1) Jesus foi casado com Maria Madalena; 2) A Igreja sempre se esforçou por esconder este “facto”; 3) A descendência de Jesus e Madalena deu origem à realeza francesa (dos Merovíngios); 4) Há um grupo secreto, o Priorado de Sião, responsável pela transmissão destas verdades, que a Igreja não quer que se revelem, para não perder o poder; 5) O Santo Graal é esta “verdade”.

As teses são facilmente rebatíveis (ainda que exista o Priorado de Sião), embora devamos reconhecer que a argumentação de Dan Brown é imaginativa. O autor diz que a grande conspiração – o abafamento desta “verdade” – se deu com o Imperador Constantino (séc. IV) e o concílio de Niceia, com a recusa dos escritos que falam do casamento de Jesus com Madalena (evangelhos apócrifos e gnósticos) e a aceitação daqueles que hoje consideramos canónicos (os três sinópticos mais o de João). No entanto, hoje sabe-se que, de facto, os evangelhos canónicos são anteriores aos apócrifos e aos gnósticos (estes surgiram exac-tamente para suprir as “falhas” dos primeiros, isto é, os episódios de que não se falava nos canónicos, e foram recusados pela mesma razão que, por exemplo, não devemos misturar um telejornal com a quinta das celebridades). Mas o facto fundamental para rebater a tese do casamento de Jesus com Madalena é este: nos evangelhos, Madalena é a primeira testemunha da ressurreição de Jesus. Ora, segundo o direito romano, uma pessoa de família não podia ser testemunha. Se houvesse algum laço familiar entre Jesus e Maria Madalena, não faria qualquer sentido que o Ressuscitado aparecesse a Madalena. Voltaremos a este assunto na próxima semana.