“A participação na Eucaristia é a ‘prova dos nove’ para a fé”

D. António Marto, a propósito do Ano da Eucaristia D. António Marto, Bispo de Viseu, esteve ontem no Stella Maris (Gafanha da Nazaré), numa sessão de formação para padres e leigos sobre a Eucaristia, que “não é uma coisa, uma oração ou devoção qualquer; é Alguém, uma Pessoa viva”. Nesta entrevista, o Bispo de Viseu justifica a dedicação deste ano pastoral ao sacramento central dos cristãos e aponta algumas soluções para a crescente escassez de sacerdotes, ministros da Eucaristia.

A Eucaristia já tem um lugar central na vida do cristão. Porquê dedicar-lhe um ano?

Em primeiro lugar, porque assistimos à perda do encanto, do enlevo e do amor a este sacramento por parte de muitos cristãos que desertaram da eucaristia dominical. A estatística dos censos dominicais nos últimos decénios fala bem claro. Então, há que redescobrir que a Eucaristia não é uma coisa, uma oração ou devoção qualquer. É Alguém, uma Pessoa viva, o Senhor Ressuscitado que quer celebrar connosco o mistério da Sua presença real, do Seu amor oferecido. Por isso, o Ano da Eucaristia quer levar ao coração da fé e da Igreja, que é encontro com Jesus Cristo vivo de um modo particular no sacramento da Eucaristia. Por isso, o Ano da Eucaristia está focalizado em Jesus e na contemplação do Seu Rosto. A participação na Eucaristia é como que a “prova dos nove” para a fé, perante a pressão de uma apostasia silenciosa de muitos que se dizem cristãos.

Em segundo lugar, é preciso restituir à Eucaristia a alta qualidade da celebração, para ser vivida com uma grande profundidade espiritual. Esta qualidade tem a sua aposta decisiva na participação consciente, activa e piedosa, que leve a superar a lógica de uma assistência à missa. Aqui abre-se um campo de formação da fé do povo cristão para uma celebração cheia de dignidade, beleza e interioridade.

Além disto, há ainda que promover o culto da adoração eucarística, como momento importante para interiorizar tão sublime mistério e viver dele na vida quotidiana.

O Ano da Eucaristia pode levar a centrar as atenções nos aspectos litúrgicos e celebrativos, em detrimento do compromisso social dos cristãos. Como evitar este risco?

A Eucaristia bem compreendida, celebrada e vivida, não fecha os cristãos em si mesmos. Por si mesma, a Eucaristia é geradora do que poderíamos chamar uma “cultura eucarística”, isto é, de uma série de atitudes, comportamentos e compromissos, que se hão-de reflectir na vida familiar, profissional e social dos cristãos no mundo e ajudam a construir a civilização da Beleza, do Amor, da Reconciliação, da Justiça e da Paz. Neste sentido, Jesus Cristo Eucarístico é “Pão para a vida do mundo”.

Celebrar o Ano Eucarístico é situar, com novo impulso, o coração da vida cristã e da Igreja no único Senhor, Jesus Cristo, que dá sentido e beleza à nossa vida e à vida do mundo.

Os sacerdotes escasseiam e cada vez há menos comunidades sem Eucaristia dominical. No entanto, a Eucaristia é um direito dos cristãos. Como fazer?

Antes de mais, este especial Ano da Eucaristia poderá ser também um momento propício para uma proposta vocacional clara e séria nas comunidades. A atracção que Jesus exerce na Eucaristia encontra um significado pleno na opção vocacional.

Depois, haverá que verificar se em determinadas comunidades, sobretudo nas cidades, e situações, não se poderia reduzir o número de celebrações para tornar os sacerdotes disponíveis para atender as comunidades mais necessitadas. E, em último recurso, temos as celebrações dominicais da Palavra com a distribuição da sagrada comunhão. Não é o ideal. Mas em terras de missão, o missionário passa uma vez por mês ou mais espaçadamente e nem por isso a fé das comunidades diminui. Isto requer naturalmente um novo estilo de pastoral. A escassez de vocações também pode ser salutar. Às vezes, Deus escreve direito por linhas tortas. O futuro o dirá! … A minha esperança é que este Ano Eucarístico seja bem vivido e sirva para despertar a fé viva das nossas comunidades, por conseguinte, da proposta vocacional.