1. O Presidente da República entendeu por bem chamar a atenção, no dia 5 de Outubro, para o impasse verificado nas reformas estruturais, que os diferentes governos (e a sociedade) não têm conseguido realizar. Tal impasse justifica perguntar se o país se encontra bloqueado.
Olhando para o Parlamento, é notório que ele se divide em dois segmentos quase iguais. Um situa-se mais à esquerda; e outro mais a direita. Um aposta no papel decisivo de Estado, mantendo, e eventualmente aumentando, a despesa pública; o outro aposta no papel decisivo de iniciativa privada e na diminuição da despesa pública, sem prejuízo da acção reguladora do Estado.
2. Olhando para a sociedade no seu todo, deparamos com a mesma divisão. No entanto, esta baseia-se mais nos interesses de cada pessoa ou grupo do que em bases doutrinárias e ideológicas.
Independentemente da pertença à esquerda, à direita ou ao centro, um segmento da sociedade portuguesa (talvez maioritário) exige mais prestações do Estado e menos impostos. Reivindica a garantia de emprego, mesmo sem trabalho. Recusa a concertação social que implique sacrifícios. E coloca, sistematicamente, os seus interesses profissionais e outros acima do bem comum (que, aliás, nem é conhecido).
Um outro segmento da sociedade defende o equilíbrio tendencial entre receitas e despesas públicas. Fomenta o trabalho e reconhece o respectivo valor. Considera indispensável a concertação social. E entende que deve ser realizado um esforço permanente de conciliação entre o bem-estar pessoal e o bem comum.
Este segmento da sociedade caracteriza-se pelo sentimento de responsabilidade. Integra pessoas da esquerda, direita e centro. E é, porventura, notoriamente minoritário em relação ao primeiro, caracterizado pela prática de irresponsabilidade.
Acresce que existe, na sociedade, um terceiro segmento que se caracteriza pela prática sistemática da ilegalidade e até do crime. Interage com os outros dois e alastra a sua presença até onde menos se espera.
3. Deste conjunto de segmentos, só o segundo estará interessado em reformas estruturais. Porém a sua margem de manobra é muito reduzida: primeiro, porque é provavelmente minoritário; depois, porque reflecte em si as divisões que se observam na vida política; e, ainda, porque as divisões observadas na vida política não parecem basear-se em posicionamentos consistentes e se mostram gravemente insensíveis à procura de posições comuns.
Sem clarificação consistente de posicionamentos políticos e sem esforço de concertação tendente à adopção das posições comuns possíveis, não parece viável a consumação de reformas estruturais duradoiras.
