O fenómeno do sucesso do livro de Dan Brown, o Código da Vinci, faz pensar na necessidade do conhecimento de Jesus Cristo. Não me refiro à relação de fé com Jesus Cristo. Essa depende de cada pessoa, embora também seja vivida na relação com os outros. Refiro-me ao conhecimento histórico do homem Jesus de Nazaré, a que os discípulos deram o título de “Cristo”.
As várias recensões que fui lendo sobre o “Código” – que, como foi referido no “Correio do Vouga” da semana passada, tem como tese central um pretenso segredo sobre Jesus que teria sido abafado pela Igreja e que constituiria o essencial da demanda do Santo Graal: o casamento e descendência de Jesus – permitiram ter uma noção sobre o que se pensa de Jesus. Numa delas diz-se: “É sabido que nunca foram encontradas quaisquer provas históricas da existência de Maria de Magdalena ou de Cristo”. A frase, em si, até pode ser correcta (porque não temos, ou são de origem duvidosa, objectos tocados por Jesus ou referidos pelos Evangelhos), mas a insinuação que se pretende, e que é algo como “logo, devemos duvidar da sua existência”, é, no mínimo, pouco honesta (nesse caso, deveríamos duvidar ainda mais do filósofo Sócrates, Júlio César ou Afonso Henriques).
Fala-se, também, como se o livro fizesse revelações sobre Jesus e Madalena desconhecidas dentro da Igreja, quando os Evangelhos são estudados cientificamente nas faculdades de teologia. Aliás, o maior estudioso da figura de Madelena é Victor Saxer… sacerdote católico.
Mas o que é mais interessante – e por isso é que vale a pena levar o livro a sério – é que os que o leram falam de Jesus Cristo. E nas conversas proporcionadas pelo livro de Dan Brown vamos ficando a saber o que se pensa do homem que dividiu a história a meio. Abundam ideias como “Jesus era extraterrestre” ou “Jesus andou pela Índia” ou “acreditava na reencarnação”. É claro que essas opiniões não são dados sociológicos. Mas há uma grande quantidade de gente que chega agora ao fim de um curso superior sem qualquer referência religiosa tradicional (como a catequese ou as aulas de EMRC) e que diz aquilo que leu ou ouviu (no caso das afirmações referidas, até poderíamos inventariar as suas fontes). Também podemos perguntar se a catequese ou as aulas de Educação Moral e Religiosa Católica dão elementos para se ter fundamentos sólidos da história de Jesus, mas a questão que se coloca é: se quisermos um bom livro sobre Jesus Cristo, que aborde as ideias feitas e as desmonte, que seja historicamente crítico, que não seja propriamente de teologia, em português… onde o encontrar? Pretender que as pessoas tenham convicções fortes sobre Jesus – a fé – quando a cultura popular vai sendo minada por boatos, alguns com séculos, não será começar a construir a casa pelo telhado? Podemos ter fé sem ter conhecimento, mas não podemos dar razões da fé sem conhecer os fundamentos.
No próximo número da Praxis, revista do ISCRA, o “Código da Vinci” será analisado num artigo. É um princípio. Mas é urgente voltar a falar de Jesus Cristo.
