A Eucaristia no meu coração Onde acontece e se celebra eucaristia, brota, na história dos homens, o excesso de gratuidade de um Deus que, por ser múltiplo e uno, em si mesmo, é fecundidade e doação permanente. Quando dizemos da eucaristia que ela é encontro, afirmamos, primeiramente, que nela acontece esta oportunidade de diálogo que Deus concede à humanidade, como fonte de todo o encontro humano. Ela é matriz de toda a relação. Matriz que afirma que toda a possibilidade de encontro só é criada quando o ofendido dá o primeiro passo. O Deus que se torna presente em cada eucaristia é o Deus que desce de Si mesmo, que, de forma escondida, dá o passo gratuito de vir ao encontro, de se ocultar, mostrando-se, de se mostrar na aparência de vazio, revelando-se como fonte de todo o perdão, como o próprio perdão em acção. Para o homem, frágil, sempre infiel e que rompe o compromisso e a promessa, só a certeza deste primeiro passo já dado, gratuito, repleto de graça, é fonte de esperança.
É por isto que cada eucaristia celebrada – em que o simbólico expressa o mistério – afirma ao mundo, a cada homem, a força de salvação que se oculta na aparente-mente casual sucessão dos acontecimentos da história. A eucaristia é, numa densidade incomparável, a raiz de todo o sentido, é a concentração de significado de todos os acontecimentos do quotidiano humano. Tal densidade não se expressa apenas, nem primeiramente, no encontro entre os homens que celebram, mas dimana da factualidade da sua natureza celebrativa e da significatividade dos seus sinais. No explícito, torna-se presente o implícito; no implícito, manifesta-se o mistério, o significado definitivo do existir humano: descortinar, nos nadas da história, o caminho salvífico, o «excesso de dom» que se antecipa à pergunta e angústia de cada homem. Deus antecipa-se. O homem indigente corre para braços, já e sempre abertos. A acção de graças de cada homem é resposta ao «excesso de Graça» que se lhe antecipa.
Luís Silva
