A Igreja de Espanha está confrontada com uma hiperactividade legislativa do Executivo presidido por José Luís Zapatero, que progressivamente tem posto em questão sectores e valores fundamentais da sociedade, como sejam: a instituição matrimonial, pela regulamentação das uniões de facto entre homossexuais, com possibilidade de adopção de crianças; a família, com a aprovação de uma nova lei do divórcio, que permite a dissolução do vínculo matrimonial três meses após a realização do casamento; a educação, com projectos que afectam o ensino público, nomeadamente quanto à disciplina de Educação Moral e Religiosa.
Este panorama tem dado ocasião a declarações e discursos contundentes, por parte de vários bispos. O Cardeal Rouco, de Madrid, em declaração lida na maioria das missas nas igrejas espanholas, em 9 e 10 de Outubro, não chega propriamente a considerar perseguição à Igreja Católica todo este edifício legal, embora afirmando que “o bem e o futuro da família estão em jogo”, para apelar à mobilização dos católicos no sentido de se oporem às intenções do Governo. Mais fortemente já se pronunciara o mesmo Cardeal Rouco, no que toca à regulamentação das uniões de homossexuais, negando ao Estado capacidade para regulamentar casamentos entre “gays”.
Todavia, mais contundente foi a voz do Cardeal Julián Herranz, presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, em Roma, nas exéquias do Cardeal González Martín, antigo Arcebis-po de Toledo e Primaz da Espanha, no último domingo de Setembro passado: “Partilhamos essa séria preocupação (a preocupação da Conferência Episcopal Espanhola) de que o conceito democrático de ‘laicidade do Estado’ – que é um conceito justo – se está a transformar, em Espanha, num conceito diferente – o de ‘fundamentalismo laicista’.”
Aliás, o mesmo purpurado considera ser esse um “laicismo agressivo”, que poderá pôr em risco a pacífica convivência entre todos os espanhóis e a colaboração de todos num progresso de liberdade, inseparável da verdade. Por quanto se pode perceber do desenrolar dos acontecimentos, confirmam-se os receios da Conferência Episcopal, quanto ao reflexo deste “fundamentalismo laicista e antireligioso” na opinião pública.
Q.S.
