No Congresso Eucarístico do México (Guadalajara, 10 a 17 de Outubro) esteve presente uma delegação de meia centena de portugueses. Um dos participantes foi o padre José Sardo Fidalgo, pároco da Gafanha da Nazaré.
Correio do Vouga – Algumas pessoas afirmam que as conclusões do Congresso Eucarístico Internacional (CEI) são muito simples. Concorda?
José Sardo Fidalgo – Sim, mas foram ditas coisas fundamentais. A primeira: Só se atinge a Eucaristia, que é transcendência, através da fé. Querer enquadrar a Eucaristia em aspectos sociológicos tem também o seu interesse, mas só a atinge quem tem fé, e a fé é um dom de Deus e uma resposta do homem. Esse dom é Jesus Cristo. Quem descobre Jesus Cristo pela fé é que depois pode compreender a Eucaristia em todas as vertentes. Muitas vezes, nós reduzimo-la a ritos, cânticos, manifestações; mas a essência é a contemplação do mistério. É difícil, mas é fundamental. Outro aspecto importante: a Eucaristia é fonte de paz e de compromisso na comunidade. Celebrar eucaristias como quem vai a este ou àquele café, “porque me agrada”, não é Eucaristia. A Eucaristia é celebração na comunidade onde vivo, na comunidade onde trabalho, na comunidade onde estou comprometido. De resto, são fogos-fátuos: “O senhor padre celebrou muito lindo” – mas a vida não fica cheia.
Na celebração que encerrou o CEI notou-se a diversidade cultural das 87 nações participantes?
Não. A Eucaristia de encerramento foi “formal” na sua estrutura, já que era para quinze mil congressistas. E notou-se muito a presença do Vaticano. Aliás, se tenho que dizer algo de não tão agradável, foi ver muita gente como cardeais e arcebispos a falar e pouca gente como presbíteros e leigos a dar o seu testemunho. Quanto a isso, o congresso foi uma pobreza. Mas é próprio – penso eu – do Vaticano. Sempre que o Vaticano entra, mostra a estrutura humana pesada.
Viu-se multiculturalidade nas leituras, nos testemunhos, nas manifestações públicas, como na procissão do Santíssimo, que demorou quatro horas, ou na de Nossa Senhora Zapopan [cidade do México], que levou quatro milhões de pessoas. A de Nossa Senhora foi mais participada.
Porquê?
Talvez porque é mais fácil mobilizar as pessoas por algo que se vê, que é uma imagem venerável, veneranda, do que pelo mistério que não se vê. Por outro lado, no México, a Igreja católica foi até há pouco uma confissão perseguida. Ainda em 1993, um cardeal foi morto a tiro. A perseguição criou uma ânsia de afirmação pela religiosidade popular. Isso é um valor, mas não se pode ficar por aí. Olhando para o nosso Portugal, cada vez vai menos gente à Eucaristia da comunidade. E cada vez vai mais gente aos santuários, sejam quais forem. Este congresso veio pôr o centro em Jesus Cristo. E Nossa Senhora só se entende porque é a Mãe de Jesus.
O CEI não teve só comunicações e celebrações…
Teve muitos momentos culturais, concertos de coros, exposições de arte sacra… Coisas maravilhosas! A arte sacra desenvolveu-se muito bem, quando o povo era explorado. O povo vivia miserável, mas fazia coisas bonitas para a transcendência. Não percebia, mas fazia. E era isso que depois lhe dava o sentido da unidade.
O congresso teve também momentos de consciencialização social com os pobres, visita às favelas e a doentes incuráveis. E terminou com um sinal que acho que devíamos copiar na diocese: uma grande fundação, em favor dos mais pobres. Aliás, é o próprio Papa que quer que os congressos terminem com um sinal para o mundo.
Como foi a participação da comitiva portuguesa?
A comitiva foi presidida pelo arcebispo de Braga. Mas Portugal não se preparou como país para ir ao congresso. Para um acontecimento internacional como este, devia ter havido mais preparação.
Houve algum momento no congresso que impressionasse mais?
No sentido da emoção do coração e da vivência de fé, foi a procissão eucarística. Vi gente pela rua, compenetrada, gente muito nova, multidões ajoelhadas… Alguma coisa marcava as pessoas, e isso era a Eucaristia.
Para a Igreja em geral, foi apontada alguma direcção?
A direcção está apontada na linha do lema do congresso: “A Eucaristia é luz e vida do novo milénio”. Foi dito a certa altura que “a Eucaristia, quando vivida, é grito no deserto do egoísmo humano”. Parece uma frase muito burilada, mas não é. Hoje temos o sentido do individual e não da pessoa. O individual é número e fecha-se em si mesmo. A pessoa só o é pela relação. A Eucaristia é uma relação. Temos muitas comunhões. Na Gafanha da Nazaré comungam por semana cerca de dez mil pessoas. Mas por vezes falta o sentido da relação.
Quer dizer que há muita gente que comunga mas não é consequente com esse acto?
Não quero fazer esse juízo. Mas uma pessoa que comunga e depois destrói a fama de outra, ou que não é comprometida no seu trabalho de operário, ou não paga o salário que deve… O bapti-zado que não se compromete na sua comunidade, mesmo que comungue e participe na Eucaristia, não entendeu o mistério eucarístico.
Na sua comunidade paroquial vai ter alguma iniciativa?
Vão surgir três fundamentais: primeiro, sob a protecção dos Pastorinhos, vamos instituir as crianças adoradoras do Santíssimo Sacramento; segundo, faremos adoração do Santíssimo nos dias 31, dos meses que o têm, data da fundação da comunidade – numa Eucaristia; terceiro, faremos um congresso paroquial. Ainda não está muito definido, mas vamos dinamizar a comunidade nesse sentido e será antes do congresso diocesano.
E para a diocese tem alguma sugestão?
Que o congresso diocesano não seja apenas um momento, mas o epílogo de uma caminhada que se inicia nas comunidades de base – as paróquias ou outras comunidades de referência. Caso contrário, será mais um acontecimento pontual; ficará na história da diocese, mas sem impacto ou transformação nas pessoas.
