Luz erguida entre as nações

A constituição Lumen Gentium faz 40 anos O Papa Paulo VI, de venerável memória, recentrou o trabalho conciliar na resposta a uma dupla pergunta: “Igreja, que dizes de ti mesma?”; “Igreja, que dizes ao Mundo?”. Embora o Concílio Vaticano II tenha desdobrado o seu fruto documental em quatro Constituições, nove Decretos e três Declarações, todos estes documentos compõem o admirável quadro que ilumina essa dupla questão. Um dos eixos desse quadro é a Constituição dogmática Lumen Gentium, cujo quadragésimo aniversário de promulgação celebramos no próximo domingo.

A estrutura da Lumen Gentium começa por contemplar o Mistério da Igreja, instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, como sacramento que é da salvação operada por Jesus Cristo, sob o fluxo permanente do Espírito. Sinal sacramental, a Igreja constitui-se como realidade divina; mas os seus contornos visíveis são as mediações humanas.

Assumindo em pleno a nossa Humanidade, Jesus Cristo, fez de nós um Povo, Povo de Deus – Povo de sacerdotes, profetas e reis, ao qual todos são chamados. Como sacramento fundante da Comunidade, o Baptismo explicita a nossa pertença a esse Povo. E, pelo Baptismo, todos participam, por direito e por dever, da missão da Igreja.

Todavia, esta Comunidade é orgânica. Reveste-se, por isso, de uma estrutura hierárquica. O sacramento estruturante desta organicidade, a Ordem, confere o sacerdócio específico, ministerial, a algumas pessoas. Bispos, Presbíteros e Diáconos explicitam, cada um a seu modo, o Serviço do Mestre ao Seu Corpo que é a Igreja.

Os Leigos assumem uma tarefa específica na missão da Igreja: ser o sal da terra, isto é, tornar a presença salvadora de Jesus Cristo, a luz do Seu Evangelho, presente no seio das realidades quotidianas, desde a família ao mundo da trabalho, desde a educação à justiça, desde a organização social à lides da política, apoiados e confirmados pelos Pastores.

Toda a multiplicidade de tarefas, ministérios, funções…, traduz a abundante distribuição de dons. Sempre, entretanto, com vista a que cada um cumpra o seu caminho, e ajude os demais a fazê-lo também, de responder à vocação de todos à santidade na Igreja.

Os Religiosos abraçam um estado de vida que testemunha os valores definitivos do Reino. Cabe-lhes o empenho em que a Igreja revele, cada vez melhor, o rosto de Cristo a toda a gente. A renúncia que a vida religiosa implica não ofusca o desenvolvimento da pessoa humana; antes o ilumina com a plena luz de Jesus Cristo.

A morte e ressurreição do Senhor é a escatologia realizada. A Igreja, sinal de Jesus Cristo, peregrina neste Mundo, contendo em si as sementes da plenitude de Vida, busca a explicitação progressiva da escatologia realizada, até à sua manifestação total. A Família peregrina tende para a Família celeste.

A Virgem Maria, Serva do Senhor e da Humanidade, é, a um tempo, modelo e estímulo, promessa realizada daquilo que todo o Povo de Deus é chamado a ser.

Perpassa na Lumen Gentium uma nova eclesiologia, marcada essencialmente pelas perspectivas de comunhão e carisma. Que trazem consigo: consequente corresponsabilidade, participação, diversidade de dinamismos. A inter-pretação e recepção destas novas perspectivas não se faz sem algumas tensões, porque se cruzam desejos opostos: de fixação ao passado, de privilegiar estruturas; de privilegiar a vida e de ousadias de futuro. Quarenta anos não são tempo demasiado para se avaliar o caminho andado. Fazemos os mesmos votos de O. Rousseau, O.S.B.: Foi um impulso que o Concílio veio dar-nos para voar. Não façamos dele uma cerca!

Q.S.