Da recusa e da intolerância ao reconhecimento

Unitatis Redintegratio, 40 anos depois Na passagem dos 40 anos sobre a aprovação no Concílio Vaticano II do Decreto sobre o Ecumenismo (21-11-1964), o Correio do Vouga pediu ao Pastor Eduardo Conde, da Igreja Metodista, que avaliasse este documento tão importante para as relações entre confissões cristãs.

Passam 40 anos desde a publicação do decreto UNITATIS REDINTEGRATIO. Concebido sob os auspícios do Concílio Vaticano II, ele abriu caminho, no contexto da Igreja Católica Romana (ICR), a um compromisso ecuménico sério e empreendedor. A sua visão acerca da Catolicidade da Igreja e das relações entre as diversas igrejas transportou-nos para um novo tempo de diálogo ecuménico, mais favorável e gerador de esperança. Da recusa e da intolerância passámos a um tempo de reconhecimento, limitado é certo, mas capaz de favorecer a aproximação e o encontro fraterno de diferentes tradições.

“Com o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica empenhou-se, de modo irreversível, a percorrer o caminho da demanda ecuménica, ficando assim à escuta do Espírito, que ensina à leitura atenta dos “sinais dos tempos”.

Esta leitura, que o próprio Papa João Paulo II faz do Vaticano II, trinta anos após a sua realização, através da encíclica “Ut unum sint”, justifica, de certo modo, as esperanças que muitos depositavam nos resultados do mesmo. O testemunho generalizado daqueles que mais de perto viveram o acontecimento, dentro e fora da ICR, vai no sentido de uma notória reforma e renovação operada na mesma, após o Concílio.

Sobre o documento que mais nos importa considerar, o Decreto sobre o Ecumenismo, ou, como é conhecido nos meios mais académicos, o Unitatis Redintegratio (UR), devemos dizer que ficou aquém das expectativas de muitos “apaixonados” pela Unidade. É certo que ele se enquadra num contexto marcado pelo “ecumenismo do retorno”, tanto nos círculos católicos como, por motivos diametralmente opostos, nos meios mais fundamentalistas evangélicos.

Como o primeiro e grande documento que a ICR elaborava para a guiar no movimento ecuménico e tendo em conta o tipo de relações ecuménicas que já se vivia no seio do Conselho Mundial de Igrejas, o UR constituiu uma certa desilusão. Esperava-se mais de um documento que, por ser normativo, iria marcar a actuação da ICR durante muitos anos. Ele ainda hoje constitui um ponto de referên-cia obrigatório para os ecumenistas católico-romanos e, para os outros, nunca pode ser ignorado.

Uma das coisas, talvez a mais importante no que se refere à unidade da Igreja, que se aguardava no texto do Decreto era que se dissesse que a Igreja de Cristo constitui um espaço mais amplo e mais abrangente do que a própria ICR. A identificação da Una Sancta com a ICR continua, ainda hoje, a ser a grande “pedra de tropeço” nas relações ecuménicas. O Concílio na sua generalidade e o Decreto sobre o Ecumenismo, em particular, em nada alteraram esta situação. É certo que se utiliza pela primeira vez a palavra Igrejas (no plural), ainda que não se defina quais são, e esta palavra estar quase sempre associada à expressão Comunidades Eclesiais.

A verdade é que para além da sua participação cada vez mais activa e empenhada no movimento ecuménico, a ICR tem sobretudo tentado implementar as grandes resoluções do Decreto UR a nível de todas as suas Conferências Episcopais espalhadas pelo mundo. Não é trabalho fácil, e passados mais de quarenta anos pode-se afirmar estar ainda muito longe de ter sido alcançado. Se alguma dúvida disto nos restar, basta-nos comparar o que os textos con-ciliares dizem, e outros que lhes têm sido acrescentados (ex. os Directórios Ecuménicos), com a prática da ICR num país como o nosso. A situação muito diferenciada em que o catolicismo vive em diferentes países e regiões do mundo, não tem facilitado esta missão.

Contudo não podemos esquecer que o caminho da Unidade faz-se caminhando, aceitando os desafios, aprendendo a dar e a ceder, sempre numa atitude de fé e esperança no cumprimento das palavras do Senhor: “Que eles sejam um, em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste.”

Por vezes divergimos quanto ao conceito de unidade que pretendemos. Outras vezes fixamos prazos e objectivos concretos que procuramos atingir não atendendo a dimensão temporal da divisão. Esquecemos facilmente que oramos já pela unidade, por forma e em espírito ecuménico, desde 1926, por iniciativa do Movimento Fé e Constituição, e desde 1935, nas admiráveis intenções propostas pelo Abade Paul Couturier. Talvez por isso alguns, católicos e protestantes, desiludidos com a lentidão do processo, afirmam nada ter acontecido de novo, fazendo-nos lembrar as cépticas críticas de alguns cristãos dos tempos apostó-licos, quando se interrogavam sobre o retardar da “parousia” do Senhor.

Eu pertenço, nesta matéria, ao pequeno número dos que não se deixam afectar por esse pessimismo, nem esfriam facilmente no entusiasmo pela causa da unidade cristã. Não desanimo, porque sei que a atitude e o agir ecuménico estão tão profundamente radicados na vontade e na Palavra do Senhor, são duma espiritualidade tão rica e pura e tão prenhes da força criativa da Esperança, tão imprescindíveis perante as divisões do mundo e das próprias Igrejas, que constituem valores incontornáveis, verdadeiros imperativos para a época presente. E por tais razões, recordo também as lapidares palavras do autor de 2 Pedro 3.8. “Não ignoreis, amados, que um dia para o Senhor é como mil anos e mil anos como um dia”.

Pastor Eduardo Conde