A Eucaristia no meu coração Era jovem, muito jovem ainda, quando comecei a assistir (participar, soube-o mais tarde) à Eucaristia. Celebrava-se, então, em latim e com as leituras em português. Eu não entendia nada do que dizia o padre celebrante (presidente, sei-o agora!), porque “quem não sabe latim, fica assim” e, também, porque ele pronunciava tão rapidamente as palavras… Sabia a missa de cor! Então, pelo meu pequeno missal, acompanhava as partes fixas da missa, sobretudo o cânone, mas mesmo assim não chegava a entender, e pensava que o padre umas vezes rezava umas orações e outras vezes outras, isto é, que o cânone não era lido todo em todas as missas. Mas a participação na Eucaristia enchia o meu pequeno coração de gozo interior, sobretudo pela alegria de receber Jesus na comunhão. De resto, tudo era privado. Só Jesus na hóstia consagrada, que eu recebia em cada domingo, me estimulava a viver na sua amizade.
Os anos decorreram. Veio a reforma litúrgica do concílio Vaticano II. Organizaram-se os ciclos semanais e dominicais da Liturgia da Palavra e, após isto, multiplicaram-se as anáforas… A celebração da Eucaristia deixou de ser sempre a mesma “coisa” e o presidente já não sabia a “missa de cor”. Vieram os cânticos em polifonia, em língua portuguesa, a substituir as belas melodias gregorianas, mas mais cantáveis por toda a assembleia litúrgica. A partir desse momento, a Eucaristia passou a ser também minha, porque comecei a ler, a cantar, a participar, a entender as palavras e a Palavra. Também já não era só o pão eucarístico que saciava a minha fome de Deus, mas também o pão da Palavra que eu recebia, mastigava e digeria. A Eucaristia passou a ter para mim outro sentido, outro sabor, que superava o intimismo com que a vivia na minha juventude. A dimensão fraterna e social abria-me novos e largos horizontes, porque entendi que a Eucaristia vai, sobretudo, para além do momento em que a celebro. Aliás, a Eucaristia começa quando acaba.
Numa ocasião participei num Congresso Eucarístico. Como me foi grato relacionar o pão eucarístico com o pão dos pobres que não há, com as misérias e fragilidades humanas, com as lutas e canseiras por uma vida mais humana… Como percebi que viver a Eucaristia é comprometer-me com a exclusão social, com os e as que marginalizo ou que se marginalizam, enfim, com todo o tipo de miséria humana! Para mim, a Eucaristia, onde celebro em comunidade o pão da Palavra e o pão eucarístico, é o “pão integral” que saboreio todos os dias, sempre que possível, e, sempre, ao domingo, em ordem ao fortalecimento do corpo eclesial de Jesus Cristo.
Preocupava-me, antes, por ter muito pouco para oferecer ao Pai com Jesus na Eucaristia, pois tinha em conta a ideia de que o presidente devia ter nas suas mãos as ofertas espirituais dos fiéis para poder entregar alguma coisa… Como me sinto, agora, agradecida ao Pai por ser Jesus quem se auto-oferece e tudo nos oferece, quem se auto-doa e tudo nos dá!
Deolinda Serralheiro
