“Disfarçava-me… e rezava”

A Eucaristia no meu coração Tudo parte da família (pais, irmãos…). Ela é muito importante, mesmo determinante, para o “gosto” pela Eucaristia. Não importam as condições em que a família viva – sociais, económicas…. O importante é que ela seja realmente família – o espaço onde todos e cada um tem lugar.

Reza-se em família, ao longo dos dias da semana, de manhã e à noite. Também no fim das refeições há, geralmente, um momento de oração, de agradecimento a Deus, sobretudo aos domingos.

Quando era miúdo, a mamãe sempre nos recordava, aos sábados à tardinha: “Amanhã é domingo; preparem a roupa para a Missa”. E domingo, de manhã, os sinos da igreja confirmavam o que a mamãe dissera. Era sinal de um dia diferente – sinal de Missa. Ouvindo os sinos, todos íamos a correr para a igreja, para ver o padre e ouvir os cantos. Isto era Missa!

Durante a Missa, o padre tinha muita solenidade; e era venerado! Começava a Missa sempre assim: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. E nós respondíamos sempre: “Amen”. Depois dizia algumas palavras.

Em seguida vinha a parte mais difícil para mim: reconhecer-se pecador, pedir perdão, para celebrar a Missa. Nessa ocasião, olhava para a mamãe, toda inclinada em silêncio, e perguntava-me: Porquê?… Era o momento mais alto, este do perdão, que ligava à saudação da paz, antes da comunhão.

No momento da consagração, todos ajoelhávamos com muito respeito, devoção e profundo silêncio. Hoje, para não “sujar os joelhos”, ficam todos de pé!… Tudo isto ficou gravado no meu coração. E trazia-me saudades, se não fosse à Missa. E a mamãe lembrava-me sempre: “Tal Missa, tal padre”!

Fomos crescendo, crescendo, até que começámos a perder alguns valores. Nessa época, em Angola (o meu país!), “matabichávamos” o marxismo-leninismo e “lanchávamos” o ateísmo prático. Foi o momento mais difícil da minha vida. Não me era permitido ir à igreja. Vivia sob vigilância. Por essa altura, como oficial do exército, disfarçava-me num fato desportivo, chapéu… e rezava. Tudo isto marcou! Marcou de tal maneira que nunca mais deixei de rezar aos domingos. Coisas da vida! Coisas do coração!

Hoje, a Eucaristia faz-me olhar os outros. E ajuda-me a questionar: Como vivem? Que posso fazer para ajudá-los?… A Eucaristia ensinou-me a partilhar “até” coisas pequenas. Certo dia, alguém, observando-me, dizia: “Isto é pouco. Ainda partes e repartes?”… “Não faz mal – respondi. Ainda chega para todos”.

A Eucaristia ensina-me a perdoar as ofensas, isto é, a não ver só o lado negativo, mas também a perceber o lado positivo das pessoas. Mesmo quando alguém não faz as coisas como as faço eu, não quer dizer que seja errado. A Eucaristia ajuda-me a compreender aquilo que está bem, mesmo que seja dos nossos “adversários”… a respeitar a opinião dos outros.

Como sacerdote percebo que, se algum dia a Igreja deixasse de celebrar a Eucaristia, tudo o resto perderia o seu valor – seria o fim! nada ficaria de pé! O que dá consistência à Igreja, que a mantém firme na sua missão, é a Eucaristia.

P. Pelágio Faz Tomás