Livro “A Crucificação e a Democracia” De vez em quando há livros que surpreendem. Este é um deles.
É lugar comum afirmar que as democracias modernas nasceram e se desenvolveram em países de matriz cristã. É certo que depois foram exportadas para outros não-cristãos (Japão, por exemplo). Mas foi nos de tradição judaico-cristã que o Estado e o poder foram dessacralizados – o que levou à separação religião/poder e à emergência da democracia, que é, afinal, o tipo de regime em que as religiões convivem melhor, mesmo que algumas inicialmente se lhe tenham oposto.
Mas este livro é mais audaz. Não trata de filiar a democracia no cristianismo, mas antes de tirar consequências para a democracia, a partir do episódio da crucificação. No momento da condenação de Jesus, refere o autor, “há uma conspiração geral contra o filho de Deus por parte dos três elementos do governo terreno – o autocrático, o aristocrático e o democrático, representados por Pilatos, o Sinédrio e a multidão aglomerada em frente ao Pretório: uma representação que é paralela à inscrição que contém a condenação de Jesus nas três línguas do mundo antigo, para nos dar a entender que a rejeição de Jesus foi universal”. Ora, quando o povo é levado a escolher entre Jesus e Barrabás, escolhe Barrabás, aca-bando por condenar o Filho de Deus. Esta decisão é vista por muitos como a prova da falácia da democracia. E fez escola: vários livros foram escritos, nos anos 20 do século passado, dando um apoio pelo menos indirecto às ditaduras que governaram a Europa.
Porém, para Gustavo Zagrebelsky, o que se passou no julgamento de Jesus foi um confronto entre poder dogmático (o do Sinédrio), que “aceita a democracia só, se e enquanto ela servir como força, uma força dirigida para impor a verdade”, e poder céptico (o de Pilatos), que, “como não acredita em nada, tanto pode aceitá-la como repudiá-la”. Nesta caso – como sempre – aceitam a decisão do povo, porque lhes dá jeito.
Mas terá sido a decisão do povo verdadeiramente democrática? Esta citação é esclarecedora (e podia ser perfeitamente aplicada aos julgamentos que todos os dias a comunicação social pede ao povo): “O povo de Jerusalém não pediu para ser investido no papel de árbitro entre o Sinédrio e Pilatos. Foi colocado diante de uma pergunta que nunca se tinha colocado a si mesmo. Sabemos quantas dúvidas tinham circulado sobre Jesus e a sua identidade, sabemos que em ocasiões se tinham atirado pedras contra ele, mas isso nunca tinha ocorrido em Jerusalém e o dilema que agora o povo tinha que enfrentar era de todo inédito. A turba não agiu. Apenas reagiu. Não se tratou de uma reunião de homens senhores de si próprios, mas de uma massa manipulada por outros. Essa multidão não era um sujeito. Era um objecto. (…) Agir depressa! Não havia tempo. A rapidez era a tendência natural daquela multidão emocional e não racional”.
Conclusão: longe de sair enfraquecida a democracia, sai reforçada a necessidade daquilo a que o autor chama “democracia crítica”, isto é, a que não dogmatiza nenhuma decisão (nem a dos referendos, muito menos a dos “privilégios adquiridos”), porque limitada e falível (o “povo detém um poder supremo, mas não ilimitado”). A demo-cracia dogmática (a dos absolutismos) e a democracia céptica (a dos relativismos), ambas sem convicções democráticas e levadas a acreditar na democracia por hábito, é que são postas em causa.
Todos estes tipos de democracia estão entre nós (como na Itália do autor), o que confere a este livro uma pertinência notável.
J.P.F.
