Escolher – obrigação difícil

Editorial Escrevi, há dias, que o dever de escolher poderia tornar-se, nas circunstâncias presentes, missão impossível. Não creio poder partilhar desta opinião derrotista. Quero crer que difícil será; impossível não é.

É da experiência comum que a escolha envolve sempre hesitação, às vezes bem dolorosa … É que fica sempre de lado algo pelo qual porventura se poderia optar. Difícil, difícil é quando subsiste a perplexidade, isto é, quando a consciência, na ocasião da escolha, se sente dividida, sem discernimento que indique um caminho sem dúvidas.

“A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo” – diz Newman. Como “centro mais secreto e santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade” (GS 16), ela é a garantia da profundidade da decisão livre, onde, como em nenhuma outra instância, há a possibilidade de perceber, ou ao menos pressentir, a luz mais expressiva para as decisões a tomar. Portanto, para escolher, tem de haver uma zona de silêncio, em busca do sussurro discreto das profundidades.

A Igreja não se confunde com a sociedade política; é antes uma reserva crítica, sinal e salvaguarda do carácter transcendente da pessoa humana. “A Igreja respeita e promove a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos” (GS 76 – 3). Nesse sentido, presta aos fiéis as indicações dos critérios do Evangelho sobre problemas fundamentais – a vida, a família, a educação, as relações sociais fraternas, a justiça social, o recto uso dos bens… – a partir dos quais hão-de julgar as propostas que lhes são apresentadas. Obrigação, portanto, de aferir propostas de programas de governo, perfis de candidatos…, pela honestidade e realismo, pelos valores evangélicos que professamos.

E depois?… Ficamos na mesma! Não há propostas políticas que preencham esses requisitos! Misturam-se as mais favoráveis com as mais desencontradas!… Escolher é difícil! Não há programas puros. Nessa altura, perante a perplexidade, só resta um caminho: escolher, em consciência, aquele que pareça o mal menor.