“Povo teu somos, ó Senhor”, a ritmos diferentes

Celebração Ecuménica em Aveiro “Mas afinal porque é que os cristãos estão divididos? Estão mesmo desunidos?” Estas poderiam ser as interrogações de alguém que não conhecesse a história do movimento ecuménico (movimento de aproximação entre confissões cristãs, movimento de diálogo e oração), ao presenciar a celebração de quinta-feira na Igreja Evangélica Metodista.

O templo da rua Oudinot encheu. Evangélicos metodistas acolherem católicos romanos. Todos juntos rezaram, cantaram, ouviram os seus pastores e, no fim, pela 23h30, partilharam um lanche no salão que existe por cima da igreja metodista. Proclamaram, durante a celebração, que Jesus Cristo é o único fundamento. E disso ninguém duvida. Então, porquê a divisão, se até os pastores se abraçaram, tal como todos os católicos e metodistas?

A razão – disse o Pastor Conde de Almeida – é que “desde o início as coisas foram complicadas. Houve sempre uma multiplicidade de visões, de sentimentos, de formas de estar diferentes”. E isso já não causa grandes problemas, como ficou exemplificado na história do debate da Rádio Renascença, quando o Pastor era ainda estudante de Teologia. Enquanto o animador da rádio estava preocupado por ter pessoas de confissões diferentes no seu programa, julgando que podia surgir algum conflito, os convidados manifestavam opiniões concordantes sobre a divisão da Igreja.

D. António Marcelino, o segundo usar da palavra, realçou que em todas as confissões cristãs “há pessoas que edificam sobre a rocha [referência ao Evangelho de Mateus proclamado na celebração] e se entregam por completo à causa do Evangelho”. As dificuldades só surgem “quando se perde o fascínio por Jesus Cristo”. Para o Bispo de Aveiro a união é ainda mais necessária porque “Cristo é incómodo para muita gente que procura esvaziar o cristianismo”. Tal verifica-se, por exemplo, no campo educativo, quando se apresenta “como ideal o descartável e transitório”. De resto, a união entre cristãos só não dá passos mais decisivos por questões históricas. “Há muita ganga, muita ferrugem para que se possam desobstruir os caminhos de um momento para o outro”, afirmou D. António Marcelino.

Numa celebração preparada pelas duas confissões, mas de certa forma vivida mais ao ritmo dos metodistas – o que esteve patente na abundância dos belos hinos característicos dos protestantes –, houve um momento que simbolizou as diferenças que há entre estes irmãos separados: o hino “Povo teu somos, ó Senhor”. Cada confissão canta-o segundo o seu ritmo (os católicos cantam-no num andamento mais rápido). Felizmente, o ensaio prévio permitiu que não houvesse muita desafinação. A harmonia é possível.

J.P.F.