“Tomai e comei”, isto é “tomei e lutai”

1. Na busca duma vivência, sempre querida e perseguida, da animação missionária eucarística, aqui ficam umas quantas notas soltas, tipo “coffee break” espiritual de vinte minutos. Uma boa ideia é uma ideia em acto. Assim poderíamos dizer um pouco do segredo da Eucaristia enquanto Memória Pascal. A mudança da eucaristia está na sua identidade. Quem não é fiel criativo a essa identidade porque não quer mudar, perde-se até na eucaristia tornando-se e tornando-a para os outros, duplamente insignificante, só Deus não o descartará em hipótese alguma. Concordando, com Shusaku Endo, “não posso resignar-me a aceitar a encenação a que os grandes artistas ocidentais recorrem para representar a Última Ceia. Mas não só eles (não falo, ironicamente, do Código de Dan Brown, sobre o quadro de Leonardo da Vinci). (…) Pessoalmente, julgo mais provável que a Ultima Ceia tenha decorrido em ambiente mais ruidoso e menos íntimo, porque em volta da casa haveria um enorme aglomerado de pessoas, algumas das quais, mais ousadas, teriam mesmo penetrado na sala do repasto para, juntamente com os discípulos, melhor escutarem as palavras de Jesus”.

A despropósito fico pasmado diante de certos atrasos. Amo o dom visível nos atrasados. Mas pergunto-me, junto com os 7% (certamente é duvidoso…), que chegam “a meio” da eucaristia, se nós chegamos assim ao emprego? Como é na ida ao futebol, cinema, concertos… entramos lá a meio da sessão? Etc., etc. E com Deus, reclamo de “perder tempo com Ele”, Graças a Deus que Ele é Eterno.

Eucaristia não é pará-choques, colete salva-vidas, espectáculo multimédia, remédio espiritual, ou garrafa de oxigénio; pode ser experiência de encantamento realista, ou vivência do compromisso pessoal porque comunitário, Aquilo que ela é para mim, passa por ser a Aliança Nova, tratado de Vida Abundante, onde “Jesus Cristo demonstra o Seu irresistível desejo de continuar a ser, para sempre e para além da morte, o companheiro e amigo inseparável de todos e cada um dos seres humanos”.

2. Um padre anda, na maioria das vezes, no “fio-da-navalha”. Como padre já presidi a muitas eucaristias, onde todos deveriam ter consciência que concelebram e não a têm. Avaliamos como lamentável, mas não se trata apenas disso, deparamos com uma oportunidade de aprendizagem. Na figura da presidência encontramos então uma ponte ou um abismo. Esse “fio-da-navalha” corta-me a mim que aprendo em cada celebração a presidir fazendo o exercício do Serviço, o célebre esquecido, Lava-pés, na tradição de João Evangelista. Em África, diz-se que é preciso pensar com os pés. Alguns pensam a eucaristia demasiado com o coração (sem desprimor para o título desta secção coerente com o ano eucarístico); outros demasiado com a cabeça; critica-se apenas o excesso das posturas anteriores, em termos de intelectualismo piedoso, ou espiritualidade desencarnada. Eu, que sou muitos, quando presido, quero pensar (tentando…e dramatizando) a eucaristia com os “pés”. Essa é a presidência fundamental de Jesus, como o Enviado a servir e não a ser servido. Muda as nossas agendas. Essa é a “minha” (que é d’Ele em seu nome, e da sua Igreja Serva) presidência, humilde e forte, porque anti-poderosa, porque mobilizadora e porque, verdadeiramente, fraternal. Debaixo para cima, olhando de igual para igual. Sem isso o jogo da comunicação falha, Jesus que sabia das nossas tentativas e tentações, por isso, suplantou os mais distraídos da ética,

3. Como cristão fere-me a impossibilidade de que o número dos que participam na eucaristia, não seja igual ao número dos que comungam (todos podem em teoria, mas a prática…). Aspiro com suor e lágrimas, que um dia celebraremos a eucaristia eterna, sem acto penitencial, pura transparência divina, Banquete da Vida em Abundância, onde não morrerá mais uma única criança de fome. Até esse momento todas eucaristias estão incompletas, Na melhor exegese, sem cair no fundamentalismo ideológico, é curioso saber, que na língua hebraica, o mesmo radical – laham – significa comer e lutar. Quando Jesus diz, tomai e comei, também podem significar tomei e lutai. O pão, o vinho têm uma dimensão sacral – frutos da terra e do trabalho, de homens e mulheres -, mas ao mesmo tempo conflitual muito forte. Serão inadmissíveis eucaristias prazenteiras e consoladoras de umbigos, Pois Jesus é Esse Pão, Sustento, que se faz, Partilha e Divisão; Esse Vinho, Alegria, que se faz Sangue de Justiça Profética por cumprir.

Pe. Pedro José