Histórias com teologia pelo meio Há pouco tempo dizia-se nas faculdades que a teologia do futuro seria a teologia narrativa, aquela que voltaria a narrar a história de Jesus de tal forma que o ouvinte dissesse: “Ups! Isto tem a ver comigo!” Na fundo, teologia narrativa era o que já fazia Jesus quando contava parábolas e alegorias. E a teologia do futuro é sempre um regresso aos modos de Jesus.
Certo é que nos últimos séculos a teologia esteve mais vira-da para a questão “Quem é Deus, que me salvou?” do que para esta bem mais existencial “Como me salva Deus?”.
Por outras palavras, interessava-se mais com o Ser e as ideias do que com a Vida e as atitudes.
“O Príncipe e a Lavadeira”, do padre jesuíta Nuno Tovar de Lemos e com ilustrações de Maria Archer que nos lembram o Principezinho de Saint-Exupery, é um livro de teologia narrativa. Não nos dá um ensaio de intrincada teologia sobre as tentações, faz-nos antes uma visita guia-da ao “laboratório das tentações”: um jornalista – óptima profissão para se ser tentado – faz uma reportagem nesse laboratório e vai relatando as regras das tentações. A primeira é “A cada cliente a sua tentação”. A segunda: “Toda a boa tentação há-de ter duas qualidades, a primeira é fascinar, a segunda desviar”. Depois da mais algumas regras, o jornalista encontra-se com o presidente do laboratório-empresa, ou seja, o tentador. Aguentará não ser tentado? Tensões narrativas deste tipo fazem de “O Príncipe e a Lavadeira” um excelente conjunto de histórias sobre “nós e Deus”, a criação, a encarnação, Jesus Cristo, a consciência, a conversão, a Igreja. Aliás, normalmente a leitura do primeiro parágrafo de cada história faz logo que-rer saber qual vai ser o desenlace, mesmo que só aconteça dez páginas mais à frente.
O padre Nuno Tovar é um excelente narrador – o que se nota logo numa história passada com Madre Teresa de Calcutá, contada na introdução.
Perguntam à Madre Teresa como se sente ao ser tão aplaudida, ao que ela responde que ficava contentíssima. Pensava em Jesus entrando de burro em Jerusalém entre os hossanas da multidão. Ela, claro era o burro que transportava Jesus! Um burro muito feliz. É esse o papel que o jesuíta reclama para si. E desempenha-o bem. Este é o seu primeiro livro, mas de certeza que não é o último.
J.P.F.
