Um religioso soberbo

Poço de Jacob – 34 Alguém disse numa conferência que é mais difícil a conversão de uma pessoa religiosa e até praticante, mas soberba, do que a de um ateu ou chamado grande pecador.

O assunto da conversão é o assunto evangélico que dá início à pregação de Jesus, e esteve na base do sentido do Baptismo de João Baptista. Em Fátima, Nossa Senhora falou muito da conversão pessoal e também da conversão dos pecadores, como proposta de apostolado à luz da comunhão dos santos e do Corpo Místico de Cristo. Para tal, existe um Advento e uma Quaresma.

O Sacramento da Reconciliação – ou Confissão – é um convite e um dom permanente para esta conversão ser possível. A Eucaristia começa com o reconhecimento da nossa condição de pecadores. A nossa consciência é a voz de Deus que nos mostra que e quando erramos. Toda a Sagrada Escritura nos fala do pecado, das suas consequências e da realidade do inferno, que Nossa Senhora mostrou aos Pastorinhos em 13 de Julho de 1917. Como S. Paulo, gememos por não fazermos o bem que deveríamos fazer e por fazermos o mal que não devemos.

A conversão é tarefa e leva-nos a deixar Deus restaurar a Sua imagem, obscurecida pelo pecado em nós. No fundo, converter-se é regressar à inocência original, perdida no pecado original. Por isso, estamos sempre em posição apta para nos convertermos… Mas só se quisermos.

O problema põe-se quando eu me sinto demasiado perfeito diante de Deus e do mundo e acho que esse assunto da conversão é para os grandes pecadores. Esquecemo-nos de que…

…o povo diz que “ninguém pode afirmar que desta água não beberei”,

…se não estou no mundo da marginalidade ou da delinquência, é porque minha vida se orientou noutra linha, enquanto outros não tiveram essa sorte,

…também sou capaz de grandes crimes e, como diz S. Paulo, se estou de pé devo ter o cuidado necessário para não cair.

Podemos ser seja o que for na Igreja, até padres ou prelados, que ninguém muda a natureza por ter sido elevado a um grau superior na hierarquia, que para nada mais é senão para servir melhor e mais. Se nos julgamos perfeitos, então julgamos o próximo. Marginalizamos o órfão, a viúva, o drogado, o homossexual, a prostituta, o pobre, o deficiente, o de outra raça ou religião. E quando julgamos, já começamos a escalada do pecado da soberba. Este pecado, quando não é reconhecido e quando é alimentado pela nossa presunção e rebeldia interior, ainda que sejamos chamados grandes apóstolos da Igreja, por ser visível o muito que fazemos, arrasta-nos para baixo, sentando-nos na mesa dos pecadores. Se nos arrependemos, damos a Deus a possibilidade de fazer algo connosco. Se não, a nossa ideia de sermos perfeitos fecha-nos a Deus, à igreja de hoje, à comunidade paroquial, ao magistério, à correcção fraterna, aos irmãos… E Deus nada pode fazer connosco. Nisto consiste o pecado contra o Espírito Santo, que Jesus refere na Bíblia, que nos faz réus de morte: não querermos a conversão e não deixarmos Deus actuar em nós. Temos caminho para andar. Coragem… Ele conhece as nossas debilidades e sabe compadecer-se.

P.e Vitor Espadilha