S. Lourenço do Bairro Entrar na igreja de S. Lourenço do Bairro, depois do arranjo do altar-mor, permite perceber um pouco o que sentiam os cristãos dos tempos do barroco (séc. XVII e XVIII): o deslumbramento perante a talha dourada, pois o ouro é símbolo de divindade. O altar-mor, agora devidamente reparado, impressiona pela sua luminosidade, pelos tons dourados, pelos reflexos. Claro que os mais críticos de hoje poderão dizer: porquê gastar dinheiro com ouro, quando há tanta pobreza? Porém, a pergunta que se impõe é outra. O escândalo é outro: não se pode deixar degradar um património histórico, cultural e religioso com mais de quatrocentos anos. Era o que estava a acontecer com a talha e com o próprio altar-mor, sustentado por barrotes que já estavam muito carcomidos.
Diz o Pe Nicolau Barroqueiro, desde há cinco anos pároco de S. Lourenço, Óis e Paredes do Bairro, que, agora, depois da obra feita, “o povo está muito contente”. “O meu medo era que o povo não gostasse, mas, mesmo em tempo de sacrifícios económicos, o povo colaborou”, acrescenta.
As obras iniciaram-se em Outubro de 2004 e terminaram em Fevereiro de 2005. “Depois disto, o altar está pronto para mais quatrocentos anos”, diz o Pe Nicolau. A inauguração decorreu no dia 20 de Fevereiro, numa eucaristia presidida por Monsenhor João Gaspar, vigário geral da diocese e presidente da Comissão Diocesana de Arte Sacra, concelebrada pelo pároco e com a participação de autoridades civis e do povo, que encheu a igreja.
Com ofertas particulares, contributos da câmara municipal e da junta de freguesia e dinheiro angariado em rifas e num espectáculo do Pe Armando, ilusionista, e dos fados da Tertúlia Bairradina, o custo das obras está praticamente coberto. E já se pensa numa próxima fase. É que, se desta vez as obras ficaram apenas pelo altar-mor (talha, tecto, instalação eléctrica, janelas e paredes), agora há que alargar a renovação ao corpo principal da igreja.
Na segunda fase das obras, serão intervencionadas as paredes, o chão e o tecto e será feito um novo altar, de pedra. Coloca-se também a hipótese de dotar a igreja de aquecimento central.
O templo actual é do séc. XVIII, mas sabe-se, por uma placa encontrada e traduzida em 1929, que a igreja inicial remonta ao séc. XIII, pois foi consagrada nas “calendas de Novembro de 1219” pelo bispo de Coimbra.
O padroeiro da igreja é S. Lourenço, diácono da Igreja Romana, que morreu mártir na perseguição do imperador Valeriano, quatro dias depois do papa Sisto II e seus companheiros, os quatro diáconos romanos. S. Lourenço é representado com uma grelha nas mãos, porque – diz a tradição – foi dessa forma, assado, que recebeu o martírio.
Apesar de o Pe Nicolau ter esta obra em mãos e uma igreja nova planeada para a sua paróquia de Paredes do Bairro (a câmara já cedeu o terreno e o projecto está a ser elaborado), reconhece que “a igreja primordial são as pessoas”. “É mais fácil fazer capelas do que construir Igreja [comunidade]”. E, quanto a isso, há muito caminho a fazer nestas comunidades bairradinas – como nas outras. A questão que mais preocupa o Pe Nicolau Barroqueiro é a degradação familiar a que se assiste. As consequências notam-se, por exemplo, no abandono escolar. Esforços sérios têm sido feitos no campo da formação cristã, com algumas dezenas de pessoas a frequentarem na paróquia o curso básico de formação cristã do ISCRA. J.P.F.
