Catequeses Quaresmais Como se desvalorizava a Palavra. “Hoje, há muito mais gente atenta à proclamação da Palavra”, disse D. António Marcelino, referindo-se às pessoas que ouvem a homilia, na terceira catequese quaresmal, intitulada “A força determinante da Palavra de Deus”. Mas nem sempre foi assim. “Vimos de um tempo, que ainda é memória de alguns, em que se dizia que a missa dominical era sobretudo um preceito. Para se sossegar a consciência desta obrigação grave, estabeleciam-se as balizas e diziam os moralistas que, “para cumprir o preceito sem incorrer em pecado grave, bastava chegar ao credo ou ao ofertório”. Era assim que se entendia o mandamento da Igreja de “ouvir missa inteira”. Como a Palavra de Deus era proferida em latim e os párocos só mais tarde foram obrigados a fazer homilia [em Portugal, o Concilio Plenário de 1926 obriga os párocos a fazer homilia ao domingo!], só a parte eucarística era importante. (…) Tudo se fazia de costas para o povo. Era um sintoma. Assim se foi desvalorizando a Palavra. Escutá-la estava reservado para as pregações e missões populares e, então, andavam-se muitos quilómetros a pé para a escutar, mormente na Quaresma”, escreve D. António na folha que distribui ao “catequizandos”.
Comer a Palavra. Hoje não se pode entender a Eucaristia sem a Palavra. Aliás, a Eucaristia é uma mesa dupla: do Pão e da Palavra (ou então, uma mesa única: a da Palavra, Jesus, o Verbo, que se faz pão), como diz o Papa, na Carta para este Ano: “A Eucaristia é luz, antes de mais nada porque, em cada Missa, a liturgia da Palavra de Deus precede a liturgia Eucarística, na unidade das duas «mesas» — a da Palavra e a do Pão”.
Justifica-se assim o gesto ordenado ao profeta Ezequiel, muito antes de Jesus se ter oferecido como Pão e Palavra: «Disse-me: “Filho de homem, come aquilo que te é apresentado, como este manuscrito e vai falar à casa de Israel.” Abri a boca e Ele deu-me o manuscrito a comer. (…) Comi-o e ele foi na minha boca, doce como o mel» (Ez 3,1-3).
Cultura da imagem. Dois fenómenos contribuem, nos tempos que correm, para a subalternização da palavra. Por um lado, “a cultura actual privilegia sobretudo a imagem”. A palavra não chega. É preciso ver. “Mostra-me!” – é a ordem. Por outro, há palavras em excesso. “Somos bombardeados por mil coisas. E, quando chega à altura de dar razões da fé, há dúvidas”, diz D. António Marcelino. E escreve: «Ouvimos muitas vezes: “Estamos fartos de palavras, queremos obras”». Mas Isaías fala da permanência da palavra: “Seca a erva e murcha a flor, quando o vento sopre sobre elas; mas a palavra do nosso Deus, subsiste para sempre” (Is 40,7-8). É caso para dizer que, apesar de tudo, uma palavra vale mil imagens.
A resposta. “A Palavra proclamada, escutada, acolhida e comentada, conduz naturalmente à profissão de fé a à oração universal e, por fim, à Eucaristia, como efeitos imediatos. Vai depois tornar-se vida na vida do dia-a-dia. Essa é a resposta esperada”, diz o Bispo de Aveiro.
Para que a Palavra seja bem acolhida (“Graças a Deus!”, “Glória a vós Senhor!”), impõem-se, no entanto, algumas condições: os leitores têm de ler bem; as condições acústicas do espaço celebrativo têm de ser as ideais; a homilia, bem preparada (disse D. António que há padres que começam a preparar a do domingo seguinte logo na segunda-feira, com a leitura dos textos). E mais estas que não se dispensam: “O silêncio acolhedor e o propósito de levar a Palavra para a vida”. J.P.F.
A próxima catequese é sexta-feira, 11 de Março, às 21h15 no Salão de S. Domingos, e tem como tema: “Entregue por nós e pala nossa salvação. Assim o pai é glorificado”.
