Revisitando o Vaticano II A constituição Lumen Gentium sofreu uma evolução radical desde o seu primeiro esquema. Vínhamos de uma visão secular, que reduzia a Igreja a uma presença entre as presenças na história, sublinhando a sua presença visível, com uma marca desmedida da instituição; ou, pelo contrário, de uma concepção espiritualista que quase eliminava a sua concretização humana.
A eclesiologia conciliar superou estas visões redutoras, pela apresentação da Igreja como mistério, espaço de encontro da iniciativa divina com a resposta humana, presença da Trindade no tempo e do tempo na Trindade. A Igreja é “povo reunido, a partir da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. É o “ícone” da Trindade, isto é, estrutura-se em comunhão, à imagem e semelhança da comunidade trinitária.
Esta origem trinitária é que configura a Igreja, desígnio amoroso do Pai, como comunhão e dela faz sacramento do Verbo Encarnado, conferindo-lhe a visibilidade social que proporciona espaço de acção ao Espírito Santo, a caminho da plenitude na mesma Trindade.
Resulta, assim, a recuperação do sacerdócio comum dos fiéis, a igual dignidade dos baptizados, todos chamados à santidade. O Espírito é dado a toda a Igreja. Sem deixar de sublinhar a diversidade de dons e ministérios, que dá forma orgânica a este povo no meio do povo. Ministérios e carismas são dons para o serviço; não privilégios nem honrarias. A santidade da Igreja progride pela santidade de cada um e pelo esforço de reconhecimento e cooperação de todos os membros e articulações.
A comunhão episcopal é relevante: não apenas dos Bispos com o Bispo de Roma, mas de todos eles entre si, numa corresponsabilidade por toda a Igreja. Do mesmo modo, a relação sacramental do presbitério, bem como a corresponsabilidade e participação no apostolado de todos os baptizados – direito e dever de todos os fiéis. Tomada a preceito, esta concepção assume a Igreja como verdadeira comunhão orgânica, que não confunde funções, que não elimina diversidades, que não admite dominações, mas serviço.
E desde o já ao até ainda não próprio do seu peregrinar, a Igreja é smepre necessitada de reforma, purificação e renovação, fiel ao tempo presente e ao mundo que virá, envolta na nuvem do Espírito. Como Maria, membro excelente e imagem da Igreja.
Querubim Silva
