Beijo a tua paixão, com a qual fui libertado das minhas más paixões.
Beijo a tua Cruz, com a qual condenaste o meu pecado e me libertaste da condenação à morte.
Beijo aqueles cravos, com que removeste o castigo da maldição.
Beijo as feridas dos teus membros, com que foram curadas as feridas da minha rebelião.
Beijo a cana com que assinaste o atestado da minha libertação e com que feriste a cabeça arrogante do dragão.
Beijo a esponja encostada aos teus lábios incontaminados, com que a amargura da transgressão me foi transformada em doçura.
Tivesse podido eu degustar aquele fel, que dulcíssimo alimento não teria sido!
Tivesse podido eu tomar o vinagre, que bebida agradável!
Aquela coroa de espinhos teria sido para mim um diadema régio.
Aquelas zombarias ter-me-iam ornado como sinal de profundo obséquio.
Aquelas bofetadas ter-me-iam glorificado como o prestígio mais alto.
Eu te beijo, Senhor, e a tua paixão é o meu orgulho.
Beijo a lança que dilacerou o documento da minha dívida e abriu a fonte da imortalidade.
Beijo o teu lado do qual jorraram os rios da vida e brotou para mim o rio perene da imortalidade.
Beijo a tua mortalha com que me adornaste, tirando-me minhas vestes vergonhosas.
Beijo o preciosíssimo sudário de que te revestiste, para envolver-me na veste dos teus filhos adoptivos.
Beijo o túmulo no qual inauguraste o mistério da minha ressurreição e me precedeste pela estrada que sai do abismo.
Beijo aquela pedra com a qual me tiraste o peso do medo da morte.
Oração de Jorge de Nicomedia, monge bizantino que viveu no séc. IX, na actual Turquia. Esta oração, de nítida espiritualidade medieval, recorda, no entanto, o facto fundamental do cristianismo: a redenção da humanidade pela morte de Jesus Cristo. Na imagem, Maria e João juntos à cruz. Ícone tradicional grego.
