O Papa sem fronteiras

Crónica de Roma O Papa peregrino morreu. O Papa do diálogo entre culturas e religiões. O Papa da paz. O Papa dos oprimidos, dos pobres mais pobres. O Papa da esperança. O Papa de todos, crentes e não-crentes. O Papa sem medo regressou à Casa do Pai.

«Às 21:37h (hora local), o nosso Santo Padre regressou à Casa do Pai». Com estas palavras, quebradas pelo pranto, o arcebispo Leonardo Sandri, Substituto da Secretaria de Estado, anunciou a morte do Papa. Escutavam-no mais de 60 000 pessoas, na Praça de São Pedro, no Vaticano, que tinham acabado de rezar o Rosário por João Paulo II. Imediatamente a multidão comovida entoou o Salvé Rainha e depois seguiu-se um longo aplauso. Entretanto, soaram os sinos da Basílica de São Pedro.

Em edição especial, o jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, noticiou a morte do Papa João Paulo II, poucas horas depois do anúncio na Praça de São Pedro: «Hoje, sábado 2 de Abril, às 21:37h, o Senhor chamou a Si o Santo Padre João Paulo II». Por debaixo desta frase uma fotografia do Papa que abraça a Cruz de Cristo.

Morreu o Papa João Paulo II: o Papa sem fronteiras. A humanidade ficou orfã… de pai.

A Constituição Apostólica «Universi Dominici Gregis» (UDG) de João Paulo II, promulgada em 22 de Fevereiro de 1996 – que contém as normas sobre a vacância da Sé Apostólica e a eleição do Romano Pontífice – estabelece a forma como foi comunicada a morte do Papa.

Antes do anúncio, foi confirmada oficialmente a sua morte, uma tarefa que corresponde ao Cardeal Camerlengo Eduardo Martínez Somalo, o qual foi introduzido nos apartamentos do Papa pelo Perfeito da Casa Pontifícia, o arcebispo James Michael Hervey. A seguir, do ponto de vista informativo, a Constituição Apostólica estabelece que o Camerlengo comunique a morte ao Cardeal Vigário para a Urbe, o Cardeal Camillo Ruini, o qual deveria dar a notícia ao povo romano com uma notificação especial, e igualmente, ao Cardeal Arcipreste da Basílica Vaticana, o Cardeal Francesco Marchisano (cf. UDG n.17). Por sua vez, o Decano do Colégio Cardinalício, o Cardeal Joseph Ratzinger, assim que foi informado pelo Cardeal Camerlengo ou pelo Perfeito da Casa Pontifícia da morte do Pontífice, tem a obrigação de dar a notícia a todos os cardeais, convocando-os para as Congregações do Colégio (cf. UDG n. 19). O texto normativo estabelece, ainda, que o Decano do Colégio Cardinalício comunique a morte do Pontífice ao Corpo Diplomático acreditado ante a Santa Sé e aos chefes de estado das respectivas nações.

Uma das questões que, de imediato, se levantou foi a quem se confia o governo da Igreja, quando o Papa morre? «Universi Dominici Gregis» responde que o governo se confia ao Colégio de Cardeais, mas somente para o despacho dos assuntos ordinários ou inadiáveis. Durante a vacância da Sé Apostólica, as leis emanadas pelo Romano Pontífice não podem ser modificadas, nem se pode acrescentar, tirar nada ou dispensar uma parte das mesmas, especialmente no que se refere ao ordenamento da eleição do Sumo Pontífice (cf. UDG n. 4).

O Papa João Paulo II morreu como viveu: homem de esperança abandonado a Cristo.

O Papa dos jovens, que ainda na noite de sexta-feira, 1 de Abril, provavelmente, tendo em mente os jovens por ele encontrados em todo o mundo ao longo do percurso do seu Pontificado, proferiu algumas palavras, das quais foi possível reconstituir a seguinte frase: «Procurei-vos. Agora viestes até mim. E agradeço-vos.» A Praça de São Pedro estava cheia de jovens, um silêncio sereno, lágrimas que caíam pelos rostos de onde despontavam singelos sorrisos, cânticos, orações e aplausos. Tantas vezes o Papa falou aos jovens e convocou os jovens, mas nestes dias, os jovens vêm até ao Papa sem serem convocados. E chegam com muita ternura, a de quem perdeu um pai, um avô… um guia, sempre à frente, a abrir o caminho.

Na noite de 2 de Abril, quando cheguei a Roma, consciente da gravidade do seu estado de saúde, recebi a notícia da morte do Santo Padre João Paulo II. De imediato, fui assaltado por um misto de sentimentos indizivéis, em que o silêncio exterior deu lugar a recordações pessoais. A primeira, em Agosto de 2000, jubileu dos jovens em Roma, a concelebração da eucarístia com o Papa João Paulo II e cerca de 2 milhões de jovens. João Paulo II batia o ritmo das músicas com a mão no braço do cadeirão e disse, nesse dia, aos jovens: «Vejo em vós as sentinelas da aurora na manhã do terceiro milénio. Vós não vos prestareis a ser instrumentos de violência e de destruição; defendereis a vida em cada momento do seu desenvolvimento terreno, esforçar-vos-eis por tornar esta terra mais habitável para todos.» Uma outra recordação, a de Fevereiro de 2003, audiência particular concedida por Sua Santidade o Papa João Paulo II, na Sala Clementina do Palácio Apostólico, ao Colégio Pontifício Português, por ocasião do seu centenário. Quando me ajoelhei diante do Santo Padre João Paulo II, as nossas mãos direitas apertaram-se e beijei o anel do Vigário de Cristo na terra. Senti-me envolvido pelo seu olhar penetrante e acolhedor. Olhos nos olhos, vi o homem de Deus e irmão dos homens.

O Papa peregrino morreu. O Papa do diálogo entre culturas e religiões. O Papa da paz. O Papa dos oprimidos, dos pobres mais pobres. O Papa da esperança. O Papa de todos, crentes e não-crentes. O Papa sem medo regressou à Casa do Pai.

Francisco Martins, em Roma