Ousar amar

À Luz do Dia Amar alguém faz-nos sentir automaticamente vulneráveis; e muitos têm medo desta vulnerabilidade. Os que se protegem mais do amor também sonham amar e ser amados; mas têm tanto pavor de sofrer, de ser rejeitados, de amar demais ou de não serem retribuídos que, muitas vezes, preferem ficar sozinhos ou ter ligações superficiais. Não avançam nem se entregam e, nesse sentido, não correm riscos.

Acontece que a vida é um risco e merece ser vivida sem protecções excessivas. Ficar só ou viver uma vida partilhada depende tanto das circunstâncias como da atitude de cada um. Não tem que ser uma fatalidade, portanto.

Aceitar viver o amor implica, também, aceitar viver as variações desse amor, aceitar que tudo se constrói com tempo, paciência e cuidado, aceitar querer sempre o melhor para o outro e, no limite, aceitar perder esse amor em que se investiu tanto. Ora, para muitos, a possibilidade da perda é inaceitável. Insuportável, mesmo. Daí viverem blindados numa espécie de bunker emocional impenetrável, onde tudo aquilo que parece ameaçador não entra. O problema é que, para estas pessoas, fica tudo à porta: o pior e o melhor. Ou seja, ao não serem capazes de arriscar viver o amor, correm o risco de passar ao lado do essencial da vida.

Vem tudo isto a propósito da última edição da revista Psychologies, cujo tema de capa era justamente a coragem de amar. A Psycologies encerrou 2004 com este tema e eu decidi retomá-lo em 2005, porque vale a pena reflectir sobre os nossos medos mais íntimos e profundos (e, até, sobre os mais remotos e insconscientes) e perceber o que está em questão quando falamos de solidão afectiva.

Todos temos desejos contraditórios e todos queremos muitas coisas ao mesmo tempo. Amar e ser amado é seguramente uma aspiração universal, mas o reverso desta moeda é que todos gostaríamos de permanecer livres, estando ligados.

“Todos sonhamos viver uma história de amor ‘top’ continuando, ao mesmo tempo, a crescer pessoalmente com inteira liberdade. Pretender gerir a vida amorosa como quem gere um plano de carreira profissional condena-nos fatalmente a desconfiar das relações, a temer o abandono, a negar a capacidade de entrega e a rejeitar quase todos os movimentos do coração que são o sal do amor” escreveu Pascale Senk na revista Psycologies.

Talvez a raiz de tantos desencontros, tanto desamor e tanta solidão seja precisamente este sonho de viver um grande romance e ser capaz, ao mesmo tempo, de construir uma vida profissional, pessoal, social e financeira “top”. Como a vida quase nunca é como gostaríamos que fosse e a realidade rara-mente coincide com a ficção, aca-bamos por nos proteger demasiado. Por tudo isto, cabe-nos perceber que, em matéria de afectos, tudo seria infinitamente mais fácil, se deixássemos de viver numa atitude defensiva. Por outras palavras, todos teríamos a ganhar, se apostássemos em conhecermo-nos melhor e se conseguíssemos acreditar mais em nós e nos outros. E é justamente porque a confiança e a coragem fazem toda a diferença na vida que vale a pena falar em ousar amar.