As duas hipóteses de sempre: ressurreição ou roubo

Dias Positivos Quando Jesus ressuscitou, não demorou que se levantasse outra hipótese para o desaparecimento do seu corpo: foi roubado. Foi assim na manhã da ressurreição – dizem os Evangelhos. É assim ainda hoje. Vê-se por aí em quase tudo.

Estas são as duas hipóteses de sempre: a ressurreição (e o espanto de uma coisa nunca antes vista, com a consequente correria a contar a novidade); e a explicação para negar o que nos ultrapassa e, em alguns casos, incomoda (o levan-tamento de hipóteses como o roubo, ou o sono dos guardas do sepulcro).

Já em vida de Jesus assim foi. Para uns era o Cristo, o Mestre, o Filho de David. Para outros era o comilão e beberrão, o louco, o possesso, o chefe de demónios.

Não espanta que Jesus levante, ainda hoje, as mesmas duas hipóteses. Há os que o seguem (os crentes) e os que o admiram (os que sem serem crentes se inspiram nele) e há os que o ignoram ou tentam descredibilizá-lo (dos Saramagos aos Dan Browns).

Para dizer a verdade, até me admira que não sejam mais os do segundo grupo (os que continuam a dizer, por outras palavras, que não ressuscitou, que o seu corpo foi roubado). É que, se uma pessoa diz “Eu sou a Ressurreição e a Vida”, “Quem vem a mim não morrerá” ou “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, das duas uma: ou não sabe o que diz, e nesse caso devemos ignorá-lo com o rótulo “Está louco” (por outras palavra: “Roubaram-lhe a inteligência”); ou, se sabe o que diz, é louco quem não lhe liga. Se não é louco, mais propaganda devia fazer para o desmentir.

Estas duas hipóteses estão presentes em tudo.

A Eucaristia – ou é ressurreição de Jesus (o voltar a apresentar a dádiva da Última Ceia – a nossa primeira) ou é uma imensa fraude, um roubo de tempo às pessoas.

O Baptismo – ou é a configuração na morte com Jesus (para a vida velha) e na ressurreição (para a vida nova) ou é um roubo da independência (o baptizado é filho, logo “dependente” do Pai).

A moral cristã – ou é uma ressurreição constante para a vida em sociedade, nos sentimentos, no trabalho, ou é um roubo da liberdade.

O Papa – ou é o arauto, o primeiro anunciante da notícia fundadora, a da ressurreição, claro (“Está vivo!”, “Não tenhais medo!”), ou é apenas o líder do “Estado rico do Vaticano, cheio de bens que devia vender para dar aos pobres”, como às vezes se ouve dizer (por outras palavras, se não dá o que devia dar, rouba).

E a lista podia continuar. As duas hipóteses estão sempre presentes, pelo que continua a ser tão necessário hoje, como na manhã da ressurreição, saber “dar razões da nossa esperança*”.

A hipótese do roubo será sempre levantada, porque é condição para a nossa liberdade. Mas a da ressurreição, vivida como certeza existencial, é que torna tudo diferente e dá sentido ao mundo.

*”Dar razões da nossa esperança” é uma expressão de S. Pedro, o tal que deixou a barca na Galileia, por não ter aceitado a hipótese “roubo” e deu origem a uma sucessão que dentro de dias conhecerá o 265º elo.