Balanço do Pontificado de João Paulo II

O Correio do Vouga pediu a algumas pessoas “um balanço do pontificado de João Paulo II”. Iniciamos hoje a publicação desses testemunhos e comentários. Continua na próxima semana.

Inventou linguagem própria, criou gestos novos

O Papa foi um homem de fé, um peregrino, um “companheiro” de caminhada, com quem o povo cristão se identificou profundamente. Soube estabelecer novos paradigmas de comunicação com a política, os jovens e as outras religiões. Soube inventar uma linguagem própria, criou gestos novos, simbólicos e marcantes. Era perceptível que provinham de uma vida íntima com Deus. O beijar o solo dos países que visitava, a maneira como rezava, a abertura ao diferente (“Que Cuba se abra à Igreja e que a Igreja se abra a Cuba”), o acolhimento dos mais afastados, a sua humildade, o seu sentido de justiça e ética, o seu bom humor impressionavam. Era, na verdade, um homem de oração.

Este Papa ajudou-me pessoalmente a acreditar mais, a descobrir Deus, um Deus muito humano, muito “tu a tu”; e a ser melhor pessoa. Recordo os encontros mundiais de juventude em que participei. A sua frase “Não tenham medo” marcou profundamente a minha vida. João Paulo II abriu um caminho de esperança para todos os homens. Foi um grande crente e será seguramente uma das referências da Humanidade. Ficará para outro Papa a renovação da Igreja, na moral sexual, no papel das mulheres, no celibato dos padres, na linguagem e rito litúrgicos. Mas não o vamos esquecer. Este homem mudou o mundo!

Rui Falcão, empresário

Conseguiu ser o que Cristo pede a cada um de nós

Este homem mudou o cenário da Igreja: esta não se limita a esperar que os crentes venham ao seu encontro, mas é a própria Igreja, na pessoa do Papa, que se dirige a cada comunidade, às Igrejas locais, a cada um!

O Papa João Paulo II pertence à história da humanidade como alguém que aceitou o desafio do diálogo inter-religioso, aproximando os Homens no caminho para Deus.

Recordo a atenção especial aos jovens, desafiando-os a carregar a Cruz de Cristo, em cada JMJ, numa proposta aliciante, mas exigente e desafiante: o caminho de Jesus Cristo.

Penso que este Homem conseguiu ser aquilo que Cristo pede a cada um de nós: rosto d’Ele no dia-a-dia da Vida!

Ondina Matos, enfermeira, membro da equipa do SDPJ

Em todas as frentes pela dignificação do ser humano

João Paulo II fica na história da Igreja e do mundo como um arauto das causas justas, do entendimento entre cristãos de todas as denominações, do diálogo inter-religioso, do respeito pelos não crentes. Mas fica também como o Papa corajoso que esteve em todas as frentes na luta pela dignificação do homem e da mulher, dos jovens e idosos, dos marginalizados e esquecidos, dos pobres.

João Paulo II foi, sobretudo, um Papa de fé, de uma fé dinâmica e aberta, determinada e ao mesmo tempo serena, que se apresentou em todos os areópagos mundiais, durante 26 anos, para apelar aos homens que abrissem os seus cora-ções a Cristo, em ordem à construção de uma nova ordem social e espiritual, onde todos fossem irmãos.

Fernando Martins, diácono

Homem de Deus com uma Cúria imperatorial

João Paulo II foi um homem baptizado com grande fé. Nestes 26 anos, a Igreja tornou-se mais piramidal (episcopal) e menos cristã. Mais leis e pouca vida.

Os presbíteros foram esquecidos. Convém lembrar que os presbíteros desceram mais de 30% e os bispos subiram mais de 55%.

O Papa foi grande defensor dos direitos dos mais pobres, da família, da vida e da dignidade humana.

A devoção à Mãe de Deus ficou mais esclarecida, em muitas atitudes, especialmente nos Mistérios Luminosos.

Um homem de Deus, com uma Cúria Romana muito imperatorial.

José Sardo Fidalgo, pároco da Gafanha da Nazaré

Não fugiu a polémicas nem evitou confrontos

Não tenho qualquer recordação dos Papas anteriores a João Paulo II. Vejo neste grande pastor um homem de convicções profundamente assumidas.

A defesa da vida e da dignidade humana foi uma tarefa que abraçou de forma corajosa, não fugindo a polémicas nem evitando confrontos com os podres deste mundo.

A Paz foi a palavra-chave do seu discurso de 26 anos. Na sua boca, esta palavra, sem perder o sentido evangélico, assumia um significado muito prático e concreto.

Deu o exemplo de construtor da paz, professando incansavelmente o diálogo inter-religioso e o ecumenismo. Esta foi, em minha opinião, a sua principal obra.

Pedro Ferreira, professor

O novo evangelizador deixou temas em aberto

João Paulo II deixa a marca da força, vigor e determinação, que é preciso prosseguir na Igreja.

Mas ficam alguns temas em aberto e para os quais a Igreja terá que encontrar respostas. Destaco, entre outros: a família no Século XXI, divórcio entre católicos, sexualidade, papel da mulher na igreja, celibato sacerdotal e a comunhão das igrejas cristãs.Fica vivo na memória do mundo como o novo evangelizador, como o novo mensageiro da esperança da libertação dos povos e da salvação. É o Papa do coração.

Carlos Borrego, Professor da Universidade de Aveiro, Presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz

Pontificado rico e cheio de contrastes

Foi um Pontificado marcante e único. João Paulo II marcou posi-tivamente com uma forte intervenção política, com a abertura à humanidade, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso e a promoção da paz; no entanto, foi inflexível na moral sexual, na dificuldade de diálogo com teólogos de fronteira, na dependência exagerada do Vaticano, no fechamento em liturgias (pseudo) perfeitas, no fechamento de horizontes em relação ao ministério ordenado. Foi um Pontificado bastante rico e, ao mesmo tempo, cheio de contrastes.

João Alves, diácono na Igreja

Sábio gestor da Nova Ordem Internacional

Com novas pontes entre a Igreja e o Mundo (deixando pontes internas por reinventar), João Paulo II fez-nos sentir que era autenticamente Homem de Deus. Defensor da dignidade inalienável da vida humana, foi sábio gestor da Nova Ordem Internacional que, decididamente, ajudou a libertar e construir. Sabermos que o continente africano foi o mais visitado; é sinal de esperança para toda a humanidade! Fica-nos um espírito ecuménico e de diálogo para o lado de fora da Igreja…

Mas, ao vermos a nossa própria casa, notando um sabor apreciável de absoluta coerência e Santidade, ficará necessariamente a sede do Espírito do Concílio Vaticano II. É certo que o tempo – século XXI – é outro! Por isso, o mesmo Mundo que aclama o Papa (mas no dia seguinte liga muito pouco à sua Doutrina) reclama nova intuição da presença da Igreja Ecuménica de Jesus Cristo… Sem cedências no essencial, mas relendo novamente os Actos dos Apóstolos, que possuem uma nova linguagem sobre o fascínio de Deus que ilumina a aventura da existência e o compromisso na construção da Comunidade e Nova Humanidade.

Alexandre Cruz, padre, director do CUFC